Relato de amamentação: uma breve e intensa história

Amamentar é lindo. Amamentar é natural. Amamentar é instintivo. Amamentar é amor.

Escutei e li essas frases diversas vezes ao longo dos nove meses em que carreguei meu filho na barriga. Nos programas de televisão, bebês que nasciam a cada minuto plugavam no peito de suas mães e mamavam com a delicadeza de um conto de fadas. Nos pôsteres de campanha, mulheres plenas alimentavam seus filhos com serenidade. No feed de atualizações da rede social, amigas recém paridas esbanjavam felicidade ao oferecer seu leite às crianças que acabaram de dar a luz. Nas memórias da vida, a mãe que amamentava os irmãos com a praticidade e facilidade de quem troca uma roupa ou calça um sapato. Parecia fácil, parecia simples. Tão fácil e natural que eu acreditei, ao longo dos nove meses, que amamentar era mesmo instintivo e lindo, e que para amamentar só bastava amar.

Assim que meu filho nasceu, descobri que as coisas não seriam dessa forma, pelo menos comigo. Pedro nasceu na parte da manhã, e durante todo o dia ninguém me falou sobre amamentação, nem a obstetra (que na verdade não tocou nesse assunto de forma decente em nenhum momento do pré natal), nem as enfermeiras. No começo da noite uma das enfermeira entrou no quarto e disse que ele precisava mamar. De um jeito nada delicado e paciente, ela colocou Pedro no meu peito, e nem eu ou ele tínhamos ideia do que fazer. Ela forçou ele contra o meu peito, abriu sua boca e tentou encaixar no meu bico, empurrou daqui, resmungou de lá e em poucos minutos decretou “seu filho não sabe mamar”. Depois falou que ele precisava de leite, falou sobre taxas de açúcar e resolveu o problema dizendo que na maternidade eles tinham leite artificial e ela poderia oferecer um pouquinho até ele aprender a pegar o meu peito. Cansada, desinformada e com medo, cedi à oferta. Na manhã seguinte, outras enfermeiras apareceram para me ajudar. Ora elas vinham em duplas, e à quatro mãos e pouca paciência, forçavam ele a agarrar meu peito, ora vinham em trios, e com seis braços, pegavam daqui, encaixavam de lá, falavam de pega, de arrumar o lábio e me faziam pensar como eu faria aquilo sozinha desfalcada em quatro mãos. Raramente elas eram pacientes ou didáticas. Uma delas atribuiu o fracasso da amamentação à minha falta de bico e sugeriu que eu comprasse um acessório que, segundo ela, resolveria o problema. Nos dias que estive na maternidade apareceram bicos de silicone salvadores, conchas de amamentação milagrosas, mas nenhuma santa alma disposta a me ensinar, de verdade, a fazer aquilo.

Viemos para casa e eu claramente não sabia amamentar o meu filho. Apesar de usar todos os apetrechos que me sugeriram e escutar que com os dias e a prática as coisas iam melhorar, elas só ficavam piores. O contato da boca dele com o meu peito causava uma dor dilacerante, ele mamava e eu chorava. Com o passar dos dias, a dor foi dando lugar ao desespero. Antes mesmo de Pedro pegar no meu peito, pensar em amamentar me fazia chorar. Por muitas vezes quando percebia sua fome, me escondia no banheiro ou dizia que ia tomar banho. Em algumas delas cheguei a ligar o chuveiro, e enquanto a água escorria pelo ralo, eu sentei no chão do banheiro e chorei de medo. Minha família não entendia muito bem tudo aquilo. Minha mãe tinha amamentado quatro filhos, minha sogra tinha amamentado um e nenhuma delas dizia ter sentido dor. Minha dor era insuportável. Ela era uma mistura de dor física, sensação de fracasso e muita culpa.

Pensei em procurar ajuda no Banco de leite da cidade, mas por desconhecimento desisti por achar que levar Pedro recém nascido num hospital lotado de gente era expor ele à doenças e problemas maiores do que a mãe que não sabia amamentar. Anos depois descobri que o atendimento do banco de leite ficava numa casa fora do complexo hospitalar. Contratei uma consultora em amamentação, aprendi a fazer a tal da pega, descobri posições diferentes e finalmente amamentei Pedro pela primeira vez sem dor. Foi lindo, mas breve. Nas mamadas seguintes eu não consegui repetir as posições, a pega e os malabarismos sozinha. O medo voltou, a insegurança tomou conta e eu me deixei conformar que aquilo não era pra mim.

Um dia apareceu uma bombinha aqui em casa, no outro, uma lata de leite artificial, e uma coisa levou a outra. Eu comecei a ordenhar o leite e oferecer no copo, depois na mamadeira. Aos poucos a produção foi diminuindo e eu comecei a intercalar meu leite com o leite artificial.

Entramos na estatística, viramos porcentagem. Em dois meses, eu havia parado de amamentar. Por muito tempo carreguei esse fracasso naquela bolsa de culpas que as mães costumam parir depois que a criança nasce. Me deixei ser chamada de “menas mãe”, tive vergonha de conversar sobre isso com outras mulheres, evitei rodas de mães, chorei.

Hoje, depois de muito estudo e vivência, tenho plena consciência de que amamentar não é natural e instintivo, muito menos força de vontade. Amamentar é mais do que isso, é estar preparada física e psicologicamente para as dificuldades que irão aparecer. Amamentar é informação, conhecimento, luta. É ultrapassar os limites da sanidade e da persistência e encontrar forças de onde a gente não sabe mais. Amamentar não é tarefa só da mãe. É do médico, que deve orientar desde a gestação até o nascimento a forma como o processo deve ser conduzido, sem oferecer fórmulas ou minar a capacidade da mulher. É do pai, que deve apoiar, amparar e participar ativamente do processo realizando as tarefas da casa para que a mulher possa se dedicar à amamentação ou de outra forma que colabore positivamente para que tudo corra bem. É tarefa da família e da sociedade no amparo e apoio, garantindo condições dignas para que o aleitamento dê certo.

Essa semana se comemora a Semana Mundial de Amamentação, e pra mim, amamentar não teve (e não tem) a ver com amor. Leite materno é alimento, amor é sentimento, independente do rumo que as coisas tiveram.

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Para saber mais sobre a importância da amamentação e técnicas adequadas de aleitamento, listei alguns sites, grupos e endereços que podem ajudar as mulheres lactantes:

Cartilha da amamentação – Ministério da Saúde:
http://www.redeblh.fiocruz.br/media/cartilhasmam.pdf

Grupo Virtual de Amamentação (GVA)
https://www.facebook.com/groups/grupovirtualdeamamentacao/
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/

Banco de Leite de Santos – Hospital Guilherme Álvaro
Endereço: Rua Oswaldo Cruz, 197 – Boqueirão, Santos
Telefone: (13) 3202-1323
Horário de Atendimento: segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 13h às 17h

  • Samantha Valdívia

    Super me identifiquei, aconteceu parecido comigo, fui no Banco de Leite, orientada corretamente depois de alguns meses, mas daí voltei a trabalhar e tive que tirar o leite e oferecer na mamadeira. Com 4 meses, Caio não quis mais o peito, continuei tirando leite com a bombinha, mas com o tempo diminuiu a produção e daí ele ficou no LA. Bom, amor e dedicação teve de monte, mas as coisas tomam outro rumo e não se sinta culpada por isso. Cada mãe é uma mãe. Sem neuras ❤

  • Jaque Bernardo

    Texto muito bom!! Um relato e tanto!