“Vai passar”

Quem é mãe com certeza já conheceu o mantra dos mantras, o famoso “vai passar”. A gente entra em contato com ele muito cedo, quando ainda grávida reclamamos dos enjoos, das dores na coluna, da dificuldade na movimentação. No parto, a dolorida contração: “vai passar”.

Então a criança nasce e você está ali, com aquele serzinho pequeno e tão dependente nos braços, e o “vai passar” precisa se tornar seu companheiro durante tantas árduas situações.

Comigo, começou na amamentação. As dores nos seios eram absurdas, eu não conseguia me imaginar amamentando naturalmente uma criança, como eu achava que seria. Isso durou longos 71 dias, até passar. Teve a terrível fase das cólicas também, que só foi dar uma trégua lá pelo quarto mês. Passou.

Mas eu confesso que havia coisas que por mais positiva que eu fosse, eu jurava que nunca passaria. Pelo menos era esse o sentimento.

Marina nunca dormiu realmente bem, sempre foi uma luta fazê-la dormir. A hora do sono era, pra mim, de longe, o momento mais torturante do dia. Junto com isso vinham as acordadas na madrugada, que variavam de uma a seis interrupções de sono. E então o mantra “vai passar” começa até a ficar esquecido, porque você acredita piamente que aquilo não vai passar nunca. NUNCA.

Esse sentimento acontecia em outros momentos. Cadeirinha do carro: uma tortura. Choro e grito desde recém-nascida: “Não é possível, não vai passar”. Sair sozinha, deixar ela com alguém: escândalo. “Não é possível, não vai passar”. Ir para escola: choro, muito choro. “Não é possível, não vai passar”. Tentativa de desmame – uma, duas, três vezes. Choro choro choro, grito grito grito: “Não, não, definitivamente não vai passar”.

É engraçado como a gente acaba deixando o racional de lado em alguns momentos. É lógico que um dia passa. Assim como tudo. Mas a sensação de dias extremamente longos, aquele cansaço e aquela privação são tão grandes nos momentos difíceis, que parece que nunca as coisas vão voltar para os eixos.

Mas elas voltam. E tudo passa mesmo.

A cadeirinha deixa de ter espinhos. O peito deixa de ser consolo e alimento. A escola deixa de ser um problema. E antes da mãe sair pra passear, rola até um beijo e um tchau, tranquilos e serenos.

Até o sono! Hoje Marina fala “estou com sono”, então vamos pra cama e geralmente ela dorme em minutos – às vezes em segundos. Sem choro nem estresse.

Vai passar. Acredite, confie. Vai passar.

Parece que aquele momento angustiante vai perdurar a eternidade, mas ele passa, como tudo na vida. Porque este é o ciclo, e é assim que tem que ser.