Brinquedos infantis, distinção de gênero e a nossa responsabilidade

Esse ano a escola do Pedro fez uma ação de Natal em conjunto com uma instituição que ajuda crianças para arrecadar roupas e brinquedos, as tais sacolinhas de Natal. Aqui em casa pegamos duas, para um menino e para uma menina, ambos com 5 anos.

Cada sacolinha deveria ter roupas, sapato e um brinquedo. Como o Pedro tem três anos, fiquei na dúvida (como sempre fico…rs) com os brinquedos, já que ainda não cheguei nessa fase e não tenho ideia do que a criançada dessa idade curte. Resolvi ir numa loja grande, de comércio popular, pra procurar algo legal.

Como toda loja desse tipo, o lugar tinha uma infinidade de coisas: bugigangas domésticas, utensílios mil e muitos brinquedos. Os produtos estavam organizados em corredores, cada qual com a sua especificidade. Os brinquedos ficavam num corredor dividido em duas partes. Numa delas estavam os brinquedos considerados “de menino”: carrinhos, caminhões, jogos de tabuleiro, bolas, kits de médico, bombeiro, construtor, jogos de raciocínio. Na outra, os brinquedos de garota: bonecas, kits de panela, fogão, geladeira, microondas, ferro e tábua de passar roupa, comidinhas e até um filtro de água. Todos os brinquedos desse setor que faziam alguma alusão a tarefas domésticas tinham embalagem rosa e meninas sorridentes na caixa. Todos, inclusive o filtro de água.

Comecei a procurar opções menos sexistas pela loja e tive uma dificuldade imensa de encontrar algo que não fizesse uma distinção tão escancarada entre meninos e meninas.  No final, escolhi para as duas crianças baldes com peças de montar, tipo Lego.  Ainda assim, o da garota era rosa, e vinha escrito “blocos de montar para meninas”. Não fiquei satisfeita, de verdade, mas entre as milhares de opções engessadas que a loja oferecia, achei essa a menos pior.

Saí de lá incomodada. Incomodada por não ter encontrado no corredor de brinquedos um ambiente mais acolhedor e menos desigual. Incomodada por não ter tido coragem de comprar um kit de médico para a menina e um de panelas para o garoto. Por perceber que, apesar de educar meu filho para a igualdade, seja ela de gêneros ou qualquer outra forma, nem todos os pais enxergam o mundo desse jeito. Por saber que somos nós, adultos, que reforçamos nas nossas crianças a ideia de distinção. Somos nós que fabricamos a cozinha cor-de-rosa, que colocamos meninas em caixas de fogões e meninos em embalagens de caminhões. Nós repetimos o mantra do “azul e rosa”, do “coisa de menina e de menino”, o “seja homem”, o “se dê ao respeito”.  Somos nós que dizemos que tarefas domésticas são apenas para meninas, que presenteamos garotas com tábuas de passar roupa enquanto nossos meninos podem ser o que quiser. A gente faz e não percebe. Reproduzimos o que aprendemos, ensinamos o que sabemos e reforçamos uma desigualdade que tem conseqüências muito maiores do que podemos imaginar.

Não é fácil se desprender disso. Na verdade, não é fácil sequer perceber que reproduzimos essas ideias, mas quando a gente se dá conta e decide mudar, não é simples. Tem muita luta interna, muito auto questionamento, muito “será?”. Aos poucos, a cada situação, e gente se (re)força, exercita a forma de ver as coisas e muda. Muda devagar. Muda dentro da gente e muda os filhos também. E seguimos, num aprendizado constante, incessante e necessário.