Sobre o ativismo intolerante

Vivemos num país pseudo democrático. Pseudo porque, apesar de acreditarmos que possuímos o livre direito de expressão, esse direito só não é contestado quando falamos ou fazemos aquilo que os outros esperam, aquilo que acreditam ser o certo. Quando “transgredimos” o senso comum ou divergimos da opinião alheia, essa democracia deixa de existir e dá lugar à intolerância. Violenta, absurda, desrespeitosa.

Meu filho nasceu há dez meses de uma cesárea eletiva. Sim, eletiva. Sabendo dos riscos, dos custos, das dificuldades do pós parto, dos remédios que precisaria tomar e das inúmeras possibilidades relacionadas à uma cirurgia desse porte, optei, ainda assim, pela cesárea. Calcada na minha história e na da minha gestação, foi essa a opção que fiz para o nascimento do meu bebê. Certa? Não sei, mas foi essa a minha escolha, única, exclusiva e apenas minha. Meu corpo, minhas regras. (Entendeu, senhora Inquisitora do Santo Parto? Minha, não sua).

Eu, assim como 53% das brasileiras que tiveram filhos no ano passado, reforcei e alimentei um sistema que trata o normal como anormal, que maltrata, fere e interfere num momento tão importante e delicado na vida de uma mãe. Eu optei pela cesárea, mas muitas mulheres não, e apesar disso, acabaram tendo seu direito de parir da forma que queriam tirado por médicos que usaram mentiras e desculpas baixas para convencê-las a essa via de parto. Muitas mulheres sofrem ainda hoje pelo parto normal que não tiveram. Algumas, de fato, se culpam por “não ter tido passagem”, ou lamentam a “circular de cordão” que minou esse sonho. Muitas carregam esse item na sua bolsa de culpa. Nem eu, nem as outras 53% “daszoperadas” somos menos, mais, melhores ou piores mães. Não somos irresponsáveis, nem dopadas, nem covardes (!!!), muito menos “jogamos nossos filhos de uma ponte” por termos feito sua chegada ao mundo através de uma operação. Somos mães, como você, que pariu seu filho de forma natural, normal, em casa, no banheiro, no meio fio, no inferno. Somos como você, que dá ou não chupeta pro seu filho, que deixa ou não ele assistir desenho, que faz ou não cama compartilhada. Somos mulheres como você, que abdicou da sua liberdade para viver única e exclusivamente a vida de outro, que se doa total e integralmente, que tem medo, que se orgulha, que transborda de amor pela vida que colocou no mundo. Somos todas mulheres, mães. Nós e você.

Hoje, se estivesse grávida novamente, as coisas seriam diferentes. Hoje, depois de ter contato com inúmeras informações relacionadas à realidade que permeia o parto normal “anormal” no Brasil, minha escolha seria outra. Hoje, minha história é outra. Não, apesar de parecer, eu não defendo a popularização da cesárea. Pode parecer contraditório, mas não é esse o objetivo do meu desabafo. Eu acho justo, correto e louvável esse movimento que acontece pela humanização do parto no Brasil. É certo que o normal seja normal, é certo que as mulheres tenham o direito de ter sua vontade e seu momento respeitados. É certo que tenhamos informações coerentes, verdadeiras e que nos deem a possibilidade de lutarmos pelas nossas escolhas, bem como é certo que sejamos respeitadas pela nossa opção. Seja ela qual for. Ativismo desrespeitoso, que julga, recrimina e ridiculariza não é ativismo, é violência. Uma violência tão forte ou pior pela qual você luta pra acabar. Ela dói e dilacera da mesma forma que um parto normal mal feito. Ativismo burro afasta as mulheres da causa, fortalece o sistema, empobrece a luta e faz com que as mulheres se tornem rivais. Ativismo intolerante gera gente intolerante, gente que não compreende e respeita a opinião do próximo, seja parecida ou diferente.

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Escrevi esse texto e postei na minha página pessoal do Facebook há dois anos. Um texto que me fez perceber o quanto amadureci nesse tempo, e que certas coisas continuam iguais.