O pai te ajuda? Pois NÃO deveria!: o machismo diário na ajuda paterna

Tem algum tempo que isso me incomoda. Mesmo antes de eu ser mãe, a pergunta “seu marido te ajuda?” já me causava calafrios. Já me disseram que é preciosismo meu, que fico me apegando as coisas pequenas como uma pequena palavra. A-JU-DA.

Recorri ao dicionário para me explicar melhor. Lá, a palavra AJUDA está assim definida: auxílio, assistência, socorro. Sendo assim, ajudar tem muito mais a ver com gentileza do que com obrigação. Isso já mostra o porquê de eu ser tão incomodada com o uso desse termo.

Não quero ser tão crítica ao ponto de desconsiderar os inúmeros casais que dividem suas tarefas de forma igualitária e respeitosa, mas que ainda assim usam da palavra “ajuda” para designar esse jeito de ser. Sei que muitas vezes o uso do vocábulo acaba sendo mais por força do hábito do que por retratar uma situação machista e desigual (como, por exemplo, dizer que seu “companheiro faz de tudo em casa, ajuda pra caramba”), e acho que a mudança do uso do termo por outro é fundamental para revisarmos as relações de poder dentro de uma família, mas não é sobre um uso inadequado de uma palavra que eu quero focar. O buraco é bem mais embaixo.

Lembro que um dia, recém-casada, totalmente leiga e atrapalhada nas tarefas domésticas – limpar, lavar, cozinhar -, ouvi de uma conhecida que o começo da vida mais independente era complicado mesmo, que dar conta de uma casa não era fácil e que eu tinha sorte, afinal, meu marido me ajudava. A-JU-DA.

Eu sei que somos frutos de uma sociedade machista que crê na mulher como a pessoa responsável pelos afazeres domésticos – mesmo que ela tenha uma jornada de trabalho fora de casa igual ou superior a do homem -, mas é inacreditável que cheguemos a 2016 ainda com essas ideias, esses vícios, inclusive vocabulares. A-JU-DA.

Numa casa dita como ideal, as tarefas deveriam ser igualmente compartilhadas entre seus moradores, considerando, obviamente, algumas particularidades. Não há como exigir que uma criança ou uma pessoa idosa tenha as mesmas responsabilidades do que um homem ou uma mulher adulta. Porém, qual é o grande problema de que homens e mulheres dividam as obrigações do lar?

Quando alguém supõe que meu marido me ajuda em casa simplesmente pelo fato de ele lavar a louça, limpar o banheiro, varrer a casa, estender as roupas, entre tantas outras tarefas da rotina, entendo que queiram me dizer que essas tarefas são obrigações apenas minhas e não dele. E como não são responsabilidades dele, em alguns momentos ele faz a gentileza de realizá-las por mim. Ou seja, me AJUDA. Percebem o quão bizarro é isso?

Voltando ao ponto da sociedade patriarcal, é fato que desde pequenas nós mulheres somos doutrinadas – sim, doutrinadas pela sociedade, pela indústria do consumo em especial – que, como seres do sexo feminino, devemos brincar com bonecas, com panelas, com vassouras… tudo que diz respeito ao cuidar. A nós cabe isso. A eles, os super-heróis, os carros, as construções, os esportes, as aventuras. Crescemos com a idealização das brincadeiras de casinha, com o brincar de mamãe e filhinha.

Ah, mas isso é brincar. Poderia ser só no brincar – o que já seria bem questionável-, mas não é. Para se ter uma ideia, a desigualdade entre as tais obrigações domésticas começa já na infância. Lembro de há alguns meses ler uma pesquisa que apresentava a realidade das meninas e meninos no Brasil e o resultado é alarmante. Delas, em sua massacrante maioria, exige-se que, entre suas tarefas diárias, lavem a louça, arrumem a cama, limpem a casa. Já a minoria dos meninos possui as mesmas atribuições.

Então chegamos a um outro ponto da vida a dois: um bebê. E antes que eu prossiga, quero saber se, além de parir e amamentar, há alguma outra coisa que um homem, agora pai, não pode fazer com sua cria? Pois é. Fora essas duas coisas, todo o resto é perfeitamente possível e – na verdade, é esperado – que um pai faça. Não é gentileza. Não é auxílio. É obrigação de alguém que, assim como a mãe, tem agora sob sua responsabilidade um novo ser.

Nesses quase 22 meses desde que minha filha nasceu, não foram poucas as vezes que ouvi um “ah, meu marido me ajuda com meu filho, mas não troca fralda de cocô”, “ele ajuda com ela no banho, mas não levanta à noite para dar a mamadeira”, “ele me ajuda sempre que pode, mas está sempre tão cansado”. Chega a ser triste ver que usamos das ações que deveriam ser corriqueiras no cotidiano de um casal de pais tornar-se como algo a se vangloriar e reforçar “veja como ele é bom, até me ajuda com o bebê”.

Aqui em casa, os primeiros meses de vida de Marina foram uma verdadeira prova de resistência. Não que hoje em dia seja fácil, as necessidades mudaram e nós nos adaptamos a muitas coisas. Mas os primeiros meses foram cruéis, a tal ponto que às vezes me pego conversando com meu marido se aquilo realmente aconteceu ou se foi tudo coisa da nossa cabeça (bem que dizem que certas coisas a gente acaba esquecendo com o tempo). O fato é que, nesse início, foi fundamental ter ao meu lado um pai que faz, e não um que ajuda.

Foram incontáveis as vezes em que eu estava zumbi, na adaptação entre mamadas, cólicas e afins, e ele ficava com a cria de madrugada para eu dormir. E ia trabalhar no dia seguinte daquele jeito, realmente “virado”. A rotina de troca de fraldas ou banho era – e é até hoje – um rodízio nunca dito claramente, porque para nós sempre foi algo exatamente assim, uma tarefa dos dois. Então troca quem está com a cria. Troca quem está mais perto. Troca quem está mais disposto. E assim por diante.

Se ele me ajuda, no sentido REAL da palavra? Com certeza, assim como eu a ele. Então é comum, muitas vezes, um de nós ir trocar a fralda da pequena e, de repente, descobrir alguma problemática (um cocô tsunami, um xixi bem na hora que a fralda foi aberta, a percepção de que o lenço umedecido acabou) e então vem a frase “Fulaaano, me ajuda aqui um pouquinho?”. Um grito por um auxílio numa hora tensa. Ajuda, esse é o sentido.

Precisamos de menos pais que ajudem e mais pais que façam. Pais que cuidem, que tomem para si a responsabilidade que é tão deles quanto de suas parceiras. Espero que, dia após dia, aprendamos a nos valorizar de forma a perceber que nós, mulheres, não temos que suportar uma carga maior que a dos homens, seja no trabalho fora de casa, nos cuidados domésticos ou com os filhos. Um relacionamento saudável supõe uma parceria que não precisa dita explicitamente, mas vivenciada a cada dia, no respeito ao outro e a si próprio. Que a ajuda paterna seja posta em xeque todos os dias, em todos os cantos, sejam nas políticas públicas – como o aumento de uma licença paternidade ou a extensão de fraldários em banheiros masculinos – ou na particularidade, como a percepção de que, quando uma criança nasce, não só “nasce uma mãe”, como tentam nos vender, mas também um pai, que erra, acerta, mas faz. E muito.

Obs: Para conhecer um pouco mais sobre a pesquisa “Por ser menina no Brasil: crescendo entre direitos e violências”, acesse os links:

http://portal.aprendiz.uol.com.br/arquivo/2013/10/14/principais-vitimas-de-trabalho-domestico-meninas-tem-menos-tempo-para-brincar-e-estudar/

http://www.ebc.com.br/infantil/para-pais/2015/01/pesquisa-mostra-que-desigualdade-de-genero-comeca-na-infancia