O primeiro palavrão a gente nunca esquece

Sou uma pessoa “boca suja”. Sempre fui, desde nova. Usar palavrão aqui em casa é algo bastante comum, confesso. Seja pra expressar indignação, emoção ou mesmo pontuar frase.

Desde que o Pedro começou a repetir as coisas que dizemos, tenho tentado maneirar nos termos feios. Quem fala bastante palavrão sabe o quanto isso é difícil, mas tenho me esforçado.

Naquela terça-feira, eu já tinha ultrapassado todos os limites de paciência e sanidade de um exército de mães, o dia tinha sido tenso. Era véspera de férias, e a mistura de ansiedade, cansaço e desespero pulsavam doidas dentro de mim. Eu tinha acordado cedo, trabalhado, e desde o primeiro contato pela manhã com o Pedro, as coisas não iam bem.

Logo cedo resolvi levar ele na feira pra dar uma volta e ver gente, e enfrentei uma crise de choro de meia hora, daquelas que te faz de mãe democrática de esquerda à totalitária hitlerista, porque a roupa que eu escolhi não era a que ele queria. Na hora do almoço as coisas também não fluíram muito bem, e tudo foi ficando mais intenso e dramático ao longo do dia. Como já estávamos em dezembro e eu não tinha montado nada da decoração de Natal, tive a brilhante ideia de montar a árvore com a ajuda dele, o que, na minha cabeça, seria uma oportunidade pra melhorar nosso humor. Assim que eu abri a caixa com os enfeites, os chiliques começaram. Enquanto eu enrolava o pisca-pisca aceso na árvore, o Pedro se pendurava nela, mexendo nas luzes e abraçando a bendita. Pra evitar que ele se machucasse, peguei a árvore pra tirar do alcance dele e tomei um puta choque, daqueles de doer o corpo todo.

– “Puta que pariu!!!”

Foi a única coisa que eu consegui falar depois do tranco, em alto e bom tom (ou berro). Com cara de espanto e assustado com meu grito, Pedro me olhou e disse “Puta paiu, mamãe!”.  Era pra eu rir, mas o desespero e a sensação de fracasso me fizeram cair no choro. Eu chorei, e como chorei! Chorei pela culpa, pelo esgotamento, pelo julgamento futuro e porque, no fundo, no fundo, eu queria rir e não podia. Eu não dei bronca nele. Não expliquei que aquilo era errado e feio, fiz que não escutei, e a vida seguiu.

Dias depois, o Pedro deixou cair no chão o celular do pai.  Assustado, meu marido correu pra ver o que tinha acontecido e pra explicar a situação, o pequeno apontou pro telefone e disse “Puta paiu papai, caiu”. Desde então, tivemos quatro situações em que ele falou palavrão. Em todas, o “puta que pariu” foi muito bem empregado e coerente. Dizem por ai que quem sai aos seus não degenera, né?

Observação materna: Nas situações posteriores ao primeiro “puta que pariu”, ao invés de repreender e dar aquela bronca escalafobética, nós optamos por adaptar o termo e perguntar “O que, Pedro? Puxa vida?”, e pedir pra ele repetir. Acho que desse jeito fica menos atraente fazer o que é proibido, e tem dado (relativamente) certo 😉