Natal, consumo e a falsa ideia de felicidade

A casa dorme. São três horas da tarde e entramos naquele estágio da soneca vespertina. O silêncio temporariamente impera. Para alguém que não tem filhos, momentos de silêncio podem nem ser valorizados, mas depois que as crias nascem, essas horas são verdadeiros bálsamos.

Por incrível que pareça – e isso é realmente incrível! –, encontro um momento de não fazer nada. NADA. Pego em um livro, mas a atenção vai embora. Deito um pouco, mas me sinto inquieta. Resolvo quebrar o silêncio e ligo a televisão.

Assim como na casa de muitas famílias, minha televisão está automaticamente no canal de desenhos. Sim, aqui evitamos ao máximo a exposição à telinha colorida e sonora, mas não nego que me rendo à Peppa Pig ou à Luna muitas vezes. E me divirto muito com elas também, por que não?

Só que não é nenhuma delas que estampa o programa daquela hora. Nem Patati Patatá ou mesmo alguma nova aventura do Peixonauta. A imagem que surge na hora em que ligo a tevê é de uma boneca que come e fala, a famosa Baby Alive. Assim que acaba o comercial – que além de tudo, ainda possui uma mensagem bastante questionável sobre meninas e maternidade-, outro vem. Uma música eletrizante, e a imagem mostra dezenas de carrinhos que aparentemente andam ou mesmo voam. Em seguida, um de bichinhos que parecem de verdade. Mais uma propaganda de boneca. Agora é a vez da massinha de modelar. Vem o caminhão.

Estou desnorteada com tanto bombardeio. Se em dias comuns o desfile de produtos na tela da TV já é algo absurdo, quando chega o Dia das Crianças ou o Natal então, a situação se torna inadmissível. Há uma enxurrada de brinquedos e de bordões que teimam em mostrar à criança que ela será muito mais fantástica e maravilhosa quando tiver aquele produto. Além disso, os maiores personagens infantis estampam de tudo: de brinquedos a alimentos, passando por produtos de higiene, móveis, roupas de cama… É um verdadeiro mercado sem fim. Penso na lei que regulamenta a publicidade direcionada às crianças. Lá se vão anos e anos e nada.

Olho ao meu redor. Moro em uma casa pequena, minha filha não tem um quarto só dela, sou bastante controlada no que diz respeito ao consumo, e ainda assim minha Marina possui duas caixas repletas de brinquedos. Brinquedos que muitas vezes ela se distrai por dois minutos e logo perde o interesse. Bola, carrinho, boneca, cavalinho, blocos de montar, mesa de atividades… E ela ainda não tem dois anos.

Paro para pensar em toda a magia que vem com o mês de dezembro. Esse mês que é tão especial em minha família, também diz respeito ao ápice do consumo. Foram incontáveis as vezes em que ouvi meus familiares, amigos, colegas de trabalho dizendo sobre como haviam acabado com todo o seu salário do mês, seu 13° daquele ano, e até contraindo dívidas para o novo ano, fazendo compras e mais compras para o Natal.

Você já parou para pensar em quantos presentes ganhava quando era pequeno? E quantos o seu filho ganha? Já se questionou se tudo isso é realmente necessário? Que valores estamos transmitindo às nossas crias quando encaramos filas intermináveis, lojas lotadas, preços abusivos em busca de “só uma lembrancinha de Natal”? Que sociedade é essa que vivemos em que o valor está no presente ofertado e não no momento aproveitado?

Na última semana, vi em minha linha do tempo inúmeros amigos compartilhando uma propaganda alemã que trata sobre o Natal. Para quem ainda não viu, ela mostra um homem idoso e sozinho que fica aguardando a vinda de sua família para passar a data com ele, mas os filhos – todos adultos e ocupados -, não aparecem. Dão desculpas e deixam o pai sozinho, um, dois, três Natais. Junto com o vídeo compartilhado, mensagens sobre o verdadeiro valor das festas em família, alguns fazendo um “mea culpa” sobre a importância da presença, e o famoso “antes que seja tarde”.

O vídeo é verdadeiramente bonito e real. Porém, é válido refletir se estar presente é suficiente e qual o sentido das comemorações, das festas em família. Vale a pena pensar se devemos ceder aos apelos da indústria que nos faz trabalhar incessantemente para termos dinheiro para comprar, comprar e comprar. Será que as crianças realmente querem dez ou vinte brinquedos, que não custam menos de cem reais cada? Até mesmo a ceia, com sua farta variedade de comida e bebida, é uma necessidade ou seria a palavra do momento, pura “ostentação”?

A sociedade capitalista que vivemos reforça, dia após dia, a necessidade de consumirmos para sermos felizes. Precisamos comprar para satisfazer nossas necessidades mais primárias, precisamos comprar porque o que temos já se tornou velho, precisamos comprar porque “temos que ter” aquele produto. E assim como tudo na vida, em que as crianças aprendem pelo exemplo, elas também vão aprendendo que comprar é bom e faz bem, e quanto mais, melhor.

Precisamos quebrar as amarras que nos ligam a esse pensamento. Certamente que o Natal é uma data em que o espírito maligno do consumismo toma conta de nossos corpos, mas o freio a isso deve ser uma prática diária. Que sejamos aptos a criar crianças que aproveitem a essência do brincar, jovens que percebam os valores a se perpetuar e adultos que sejam capazes de transformar, isso sim!

Feliz Natal!

Obs: Se você ainda não assistiu à propaganda citada, segue o link:

https://www.youtube.com/watch?v=V6-0kYhqoRo