O Orquidário e o menino

Na imensidão verde, a menina se perdia entre plantas e bichos. Olhava encantada as plumas coloridas do pavão e o pelo dourado da cotia. Observava as diferentes tonalidades de flores e pássaros e o trabalho incansável das pequenas formigas que ali viviam. Aquele espaço, diferente da cidade, da escola, de sua casa, era um mundo encantado onde a imaginação corria solta. Os sons, cheiros e texturas eram um convite para grandes histórias. Ali ela era princesa, caçadora, aventureira. Ali, ela podia ser o que quisesse, sem imposições e padrões.

A menina cresceu, e seu olhar adulto das coisas a fez perceber que a imensidão do lugar não era nem tão grande, nem tão verde. O parque, outrora palco das lembranças mais agradáveis de sua infância, virou um simples parque, com plantas e animais.

Os anos passaram e, como as árvores do Orquidário, a menina deu frutos. O lugar, deteriorado pela ação do tempo e pela falta de magia da vida de gente grande, virou então passeio familiar.

Entre vielas e gaiolas, seu fruto descobriu sons, cores, formas. Entre vielas e gaiolas, seu fruto cresceu. Os olhos atentos do bebê observador no colo da menina-mãe deram lugar às mãozinhas curiosas e passos cambaleantes do pequeno bípede, ansioso em descobrir o mundo. Os gritos, forma mais primitiva de comunicação, viraram palavras que expressavam a alegria ao ver o “piu piu” voar, os saltos agitados do “tatato”, e o esconde-esconde das cotias, carinhosamente chamadas de “au au”. Entre domingos e visitas ao Orquidário, numa tarde muito parecida com as viveu em sua infância, a menina viu sua cria virar um menino. Num domingo ensolarado, o bebê, agora menino, foi príncipe, caçador, aventureiro. E o Orquidário, imenso e verde, se tornou o mundo mágico dos dois.