Solidão materna e aquele julgamento desnecessário

No último final de semana, rolou uma situação que me incomodou bastante. Ainda estou digerindo o acontecimento, que me fez questionar (e muito) minha posição social de mãe.

Fomos a um aniversário de criança. A festa, realizada num buffet, foi cercada das formalidades que todo aniversário nesse tipo de local tem: muitas pessoas, barulho, música alta, crianças correndo. Nosso sábado já tinha sido agitado, mais cedo houve um evento na escola do Pedro para reunir alunos e famílias numa manhã de brincadeiras e confraternização. Foi gostoso e ele se divertiu bastante correndo e brincando com os colegas de classe. O Pedro é um bebê. No auge do seu um ano e nove meses, por mais que, em alguns momentos eu me esqueça disso, ele é um bebê. Um bebê que se cansa, irrita e tem seus limites, como qualquer pessoa.

Festas de aniversário são particularmente tensas pra mim. Explico o motivo: desde que virei mãe, minha vida social ficou restrita a poucos e caóticos momentos. Raras são as vezes que saímos e é tudo legal pros três. Eu fico ansiosa pra sair, fico na esperança que consigamos chegar só com uma hora e meia de atraso e que tudo corra bem, e como em aniversário de criança juntamos convívio social, cerveja e piscina de bolinhas, a coisa costuma dar certo e ser divertida pra família toda. Costuma. Nesse sábado, em particular, não deu. Não sei se foi o barulho, a agitação ou o cansaço acumulado do dia que fizeram o Pedro assumir seu momento “virado no Jiraya”. Desde a hora que chegamos até a que decidimos ir embora, ele reclamou ou chorou por algum motivo. Confesso que isso me aborreceu bastante. Pra caramba, na verdade. Esse tipo de evento pra mim é bastante significativo, eu realmente crio expectativas quando somos convidados pra aniversários, por mais doentio que isso possa parecer…rs. Abstinência social somada à choro de criança podem transformar uma mãe compreensiva e carinhosa numa pessoa bastante egoísta. Eu não gosto quando o Pedro começa a chorar. Assumo que, antes de ter a sensibilidade de entender que alguma coisa não tá bem, eu fico brava. Fico irritada pra só depois perceber que ele também tem vontades e direito de não estar bem.

Antes de ser mãe, eu não tinha ideia de que nós não temos controle sobre o choro dos nossos filhos. Pra mim, criança chorando ou fazendo escândalo era sinônimo de mãe incompetente. Depois da maternidade eu percebi como fui injusta com uma porção de mulheres que, assim como eu, fizeram esforços sobre-humanos pra acalmar suas crias e atender suas necessidades. Mulheres que tiveram dias difíceis e cansativos, e que, como eu, podiam estar ansiosas por um passeio tranqüilo ou uma refeição em silêncio. Sou contra a maternidade compulsória, mas concordo com a frase clichê “tem coisa que a gente só entende depois que vira mãe”. De fato, só entendi que cara feia não faz criança calar a boca, não diminui a irritação da mãe, da criança, do cachorro e do papagaio num momento de explosão. Na verdade, só piora.

No sábado, o choro excessivo do Pedro fez com que algumas mulheres que estavam numa mesa próxima nos olhassem de cara feia. Mulheres com filhos pequenos nos lançaram olhares cheios de julgamento e desaprovação, seguidos de alguns comentários com tom de reprovação. Na hora, tive muita, muita vontade de verbalizar palavras de carinho e acolhimento (#sqn), e em seguida perguntar se os filhos delas nunca haviam chorado na vida. Não fiz. Entalei a raiva na garganta e fiquei (ainda tô, na verdade) digerindo aquela situação de descaso, desamor e total falta de compreensão pelo outro. Não curto ser metralhada com cara de bunda quando o Pedro chora por qualquer pessoa que seja, mas quando isso vem de outra mãe, me mata um pouco por dentro. Fico decepcionada ao perceber que, em muitas mães, o amor e o acolhimento que elas acreditam ensinar pros filhos falta nelas próprias, ou pior, que elas não vejam esses valores como fundamentais pra vida em sociedade. Me corrói perceber que muitas mães se dispõem a tachar outras, seja lá o que for, ao invés de estender a mão, emprestar o ombro e dizer “Calma amiga, tamo juntas!”.

A maternidade é punk, é uma tarefa árdua e solitária. Solitária pela exclusão social que nós mulheres sofremos quando nos tornamos mães (quem nunca perdeu amigos depois do nascimento dos filhos ou escutou frases do tipo “aqui não é lugar de mãe”?), solitária pela sobrecarga que muitas vivem na criação e cuidados dos filhos (teu marido/companheiro “ajuda” ou cria o filho contigo?). Aí, no tufão de dificuldades e desafios diários, vem uma mulher que passa pelos mesmos (ou piores) perrengues que você e te aponta o dedo, te vira a cara. É pra morrer de raiva, né? É, e eu morro. É pra pensar e analisar o porquê de uma disputa mesquinha e egoísta que não leva mulher nenhuma a lugar algum. Eu passo raiva e me seguro. Passo raiva, respiro e penso “Se o seu filho não chorou hoje, amanhã ele pode chorar. Amanhã pode ser difícil pra você, e se for, eu tô aqui pra ajudar”, porque pra mim, mão de mãe foi feita pra estender, não pra apontar. Numa sociedade onde somos absurdamente oprimidas, o desdém pela outra é combustível pra fortalecer a opressão. Por isso mães, entoem o mantra “menos julgamento e mais acolhimento”. Por favor.