Mais um pouquinho da maternidade idealizada: qual ideal anda sua realidade?

No último fim de semana, eu e um grupo de amigas nos reunimos para um encontrinho gostoso, regado à muita prosa e quitutes juninos. Até aí, nada de diferente, tudo natural como qualquer grupo de amigas faz, se não fosse por um detalhe básico: todas nós temos filhos ainda pequeninos, que não chegam aos três anos de idade. Sendo assim, foi uma reunião de mulheres-mães (e toda a carga que isso representa) e nossos bebês.

Entre brincadeiras, comilanças e supervisões constantes – “tira a mão daí!”, “cuidado com o degrau”, “não coloca isso na boca”, “empresta o brinquedo pro amigo”, “não foi nada, já já passa”, e outros tantos bordões -, conseguimos, em alguns raros momentos de tranquilidade e concentração das crias, conversar um pouco sobre a vida, sobre a maternidade, sobre o mundo. Sobre tudo e qualquer coisa.

Não preciso nem dizer o quanto esse dia, essas poucas horas, me fizeram um bem danado! Não, eu não acho que depois que fui mãe preciso necessariamente andar apenas com amigas que são mães. Também não acho que minha vida deva girar apenas em torno disso – apesar de pensamentos maternos serem ininterruptos em minha mente, mesmo quando eu não quero -, mas é bom poder desabafar, contar as lamúrias, buscar um ombro amigo em pessoas que te conhecem e que vivem as mesmas coisas que você. Porque não adianta, o que sinto é que certas angústias, medos, dúvidas são bastante constantes em qualquer mãe de primeira viagem – e de segunda, e de terceira, e de quarta… -, e que compartilhar isso acaba aliviando e trazendo paz. Pode não trazer soluções, mas traz uma paz sem igual.

Entre os assuntos picotados que conversamos, um deles me deixou bastante reflexiva por algum tempo. É sobre a tal da idealização materna. Vou explicar melhor. Em um dado momento, alguém comentou sobre amamentação e, como qualquer grupo heterogêneo que se preze, temos as diferentes experiências nesse sentido. Das mães, como eu, que já estão na fase da amamentação prolongada às que ainda estão caminhando nesse mundo; das que precisaram ceder ao leite artificial nos primeiros dias ou meses às que intercalam leite materno com leite artificial; das que têm a disponibilidade para fazer a livre demanda o tempo todo, por estarem em casa com seus filhos, às que precisaram buscar alternativas pois voltaram a trabalhar, às vezes por doze horas diárias. Perfis diversos. Realidades diversas.

Usando como exemplo a amamentação, há um mundo ideal. O mundo do bebê que mama no peito da mãe desde o primeiro dia, que não toma outro leite, que faz o desmame natural. No mundo ideal, há uma mãe radiante e um bebê radiante. E o que fazemos com as mães que não estão nesse mundo idealizado? Porque assim como tudo na vida, há o mundo ideal, perfeito e maravilhoso, e há a realidade nua e crua, aquela que se apresenta ali diariamente para a gente e com a qual muitas vezes temos dificuldade de lidar.

Sou a favor de buscarmos o ideal. Mas não suporto a ideia de transformar essa idealização em algo que acabe por torturar uma mulher que simplesmente possui a sua realidade e que tenta fazer dentro dela o melhor possível. A idealização materna pode ser cruel com quem não a atinge e pode acabar levando uma mulher muito bem resolvida a questionar suas escolhas maternas, e, pior, passar a “arrastar correntes” porque simplesmente não faz parte desse grupo seleto e idealizado.

Assim como não acredito em perfeição em nenhuma área da vida, também não creio em uma mãe perfeita. A mãe idealizada que a sociedade tenta nos mostrar não existe! E que bom que ela não existe! Essa idealização propagandeada por aí só faz com que nós, mulheres, pensemos cada vez mais que não nos encaixamos em padrões, que não somos boas suficientes, que somos culpadas por tudo e qualquer coisa.

Não somos mulheres de aço, não somos heroínas, somos pessoas comuns, em busca da felicidade simples e do bem-estar de nossos rebentos. Insistir nessa idealização incessante é cada vez mais insistir na tal sacola da culpa, a famosa culpa materna que vem junto com a barriga que ainda cresce.

A primeira conclusão a que chego é que somos reais e, dentro de nossas realidades, devemos fazer o melhor que nos cabe. Sem ideais e padrões a serem seguidos. E minha segunda conclusão é que sim, poder ter uma rede de mães que conversam, que te ouçam, que te acolham, sem cobranças  e comparações, com as imperfeições naturais de cada ser, é simplesmente fundamental na prática da maternidade consciente.

“Ao infinito e além!”