Da primeira grande separação: é hora de escola!

Foram meses e meses juntas, dividindo o mesmo ar, ouvindo as risadas, os choros, vendo cada primeira vez – do comer, do rir, do rolar, do sentar, do engatinhar… TUDO.

Cheguei a ensaiar uma separação, por meio período – ela tinha quatro meses -, mas não chegou a quinze dias. Me remoía ter que sair de casa e deixar um ser tão pequeno e indefeso para trás. Resolvi arriscar e ouvir meu coração: voltei para o lar. Como mulher de dois empregos que era, pude dar um “basta” em um deles e retomar a rotina diária de cuidados com minha pequena por longos dez meses. Sim, foram dez meses de aprendizado em que estávamos enlouquecidamente juntas.

Mas, a cada dia, era um dia a menos. Um dia a menos, e o coração doía; um dia a menos, e a lágrima rolava; um dia a menos, e a cabeça torturava. Um a dia menos, um dia a menos…

Um mês antes do meu retorno definitivo, veio a decisão: sim, a pequena vai para a escola. Aquela coisa gorda e fofa, que fala “papa”, “auá” e só, iria para a escola.

Sou professora e, como tal, acredito na escola como meio de transformação de uma sociedade – sim, pode me chamar de utópica, de Poliana, o que seja, mas eu acredito! Acredito na escola como um local muito além da aprendizagem de “conteúdos”, e sim como ambiente de socialização e vivência pura. Acredito no papel da escola no estimulo à criatividade, à brincadeira, à liberdade de pensar e sonhar. Mas também acredito que, nos primeiros anos, o melhor local para uma criança é no aconchego de seu lar, de preferência sendo cuidada por seus pais, para que possa criar bases sólidas e voar lindamente sozinha quando chegar a hora.

Só que a vida tem que continuar, o mundo não para de girar, e embora a vontade era me agarrar em minha fofurinha para sempre e não deixá-la ir, era necessário. As contas do mês não esperam você se recuperar de um puerpério, ou que sua pequena comece a andar, a falar. O mundo é cruel, desumano. Você precisa voltar para a “roda viva”.

A escolha do melhor local para a minha riqueza maior foi minuciosa. Considerei uma análise racional, obviamente, tanto no que diz respeito às nossas – minhas e do marido – crenças do que seria uma “boa educação” (Como é a escola? Quem são as professoras? Quantos alunos por sala? Como são as atividades? Qual o foco da escola – no meu caso, queria uma que focasse no ‘cuidar’ e no ‘brincar’, isso pra mim é o mais importante nessa idade.), quanto no que diz respeito a questão prática e logística (Onde fica a escola? Quanto custa? Quanto tempo leva para chegar lá?). Mas, como tudo na vida, racionalidade sozinha não vai a lugar nenhum. E aí entra o tal do sexto sentido – será que eu tenho? Nessas horas, ele se revela. É a entrada num ambiente que não te agrada, por mais “top” que ele possa ser; é um olhar que te constrange ou te deixa em dúvida; é uma fala que te toca de uma forma esquisita. Tudo isso você sente. E registra. E analisa. E pondera.

Chegamos à decisão final. É a escola ideal? Decerto que não. Mas é o ideal para o momento, o mais perto possível do que quero e posso oferecer para ela na minha ausência.

***

Chega o primeiro dia, a tal da adaptação – adaptação de quem mesmo? Deixo-a na escola, vejo–a com os novos amigos, com as professoras, observo de longe… Saio um pouco, resolvo dar uma volta com o marido. Como é estranho! Cadê aquele pacotinho de risadas? E aquela bolsa gigante? Posso fazer alguma coisa de antenas um pouco abaixadas? É estranho. Muito estranho.

Mãos livres, colo livre. Pensamento… hum, nem tanto. O marido também estranha, mas acaba soltando “mas nem estou achando tão ruim!”. Puxa, ele falou aquilo que eu estava com medo… “Não fala alto!”, tenho vontade de dizer. “O que as pessoas vão pensar de você dizendo isso?”. As pessoas, as pessoas… Danem-se as pessoas! Sabe que não é tão ruim ter meia hora só para mim, só para nós? Descansar um pouco do turbilhão, conversar sobre nós, sobre nada, sobre amenidades. A culpa aparece – Hello! Achou que eu tinha ido embora? – Como posso pensar isso? Mas a sensação é gostosa, confesso.

Logo a saudade bate e vamos ao encontro da pequena. Nos reencontramos “ela é uma fofa, super tranquila, quase não chorou, brincou, bateu palmas”. É, acho que a adaptação será mais fácil do que pensávamos.

E foi. Com uma gripe aqui, um resfriado ali, uma febre acolá – essa é uma das partes mais chatas da questão escola: imunidade laaaá no pé -, minha Marina tem me mostrado que o ideal nem sempre está perto do real. E não há nada de errado nisso.

Posso me considerar uma mulher de sorte. Quantas mães têm a possibilidade de abrir mão de um emprego para poder ficar um pouco mais de tempo em casa? Quantas podem esperar os dez meses para se separar de seus rebentos? Quantas têm a chance de trabalhar apenas meio período e ter a sorte de continuar compartilhando das alegrias e aventuras de ter um bebê? Quantas podem efetivamente escolher o local onde deixarão suas crias?

No Brasil, a história está longe de ser a ideal – uma licença maternidade de quatro meses, uma licença paternidade de cinco dias (!!!), a falta de uma rede de apoio para o cuidado desses bebês, a falta de creches suficientes para amparar as mães e os pais, um maior respeito ao tempo de cada mãe, de cada pai, e, especialmente, de cada bebê…

Prefiro sempre pensar que vivemos como podemos. Mas vivemos. Tantos vivem assim, por que não nós?

Portanto, quando você se sentir angustiada e sozinha, se sentir uma mãe ruim ou culpada por ter que deixar seu pequeno na escola para poder ganhar seu pão diário, lembre-se de quanta gente há lá fora como você. Lembre-se de quão maravilhosa você é quando está com seu pequeno, lembre-se dos momentos que pode estar ao lado dele. Lembre-se de que tudo que você faz é pensando no bem-estar dele. E esvazie, sem dó nem piedade, sua mochila da culpa. A vida é muito curta para carregar a culpa.

Quanto a mim e minha pequena? Seguimos há quase três meses na rotina da escola, necessária, por vezes cansativa e dolorida, mas recompensadora, principalmente quando o portão da escola abre e eu vejo aqueles dois olhinhos de jabuticaba olhando pra mim e brilhando, como se tivesse encontrando o tesouro mais precioso. Ah, isso não tem preço!