O nascimento do Pedro: minha nada mole cesárea

Antes de começar meu relato, deixa eu esclarecer uma coisa: o dia do nascimento do meu filho foi o dia mais feliz e importante da minha vida. As coisas poderiam ter tido um toque mais sutil, mais romântico e bem mais humano, mas não tiveram, e por isso esse título. Não, antes que você aponte o dedo pra mim e diga “a culpa é sua”, eu não tiro ela de mim. Não, hoje, quase um ano e meio depois e uma bagagem de conhecimento e relatos que eu não tinha na época, eu não teria feito essa escolha. Enfim… faço malabarismo todo santo dia pra criar meu filho da melhor maneira possível, mas ainda não tenho o dom de voltar no tempo, então, vamos ao meu relato.

Era uma sexta-feira, e naquele dia eu completava 39 semanas de gestação. Eu estava enorme, engordei absurdos 18 quilos e tava mais inchada do que um baiacu. Minha barriga doía, minhas costas doíam, minha ansiedade estava a mil e eu não aguentava mais atender o telefone e escutar “e aí, seu filho não nasce não?”. Por conta da perda da gestação anterior, passar das 40 semanas não era uma possibilidade que eu e meu marido havíamos cogitado, mesmo sabendo que a gravidez pode chegar ou passar de 42 semanas. No final dia eu tinha consulta na obstetra, e já tinha combinado com o meu marido de falarmos sobre uma cesárea, caso as coisas parecessem devagar. Confesso que eu não aguentava mais estar grávida. Tudo me incomodava: as dores, o peso, os pés e a ansiedade, que me remoia demais. Eu também estava com medo, muito medo.

Chegamos no consultório e por um milagre divino eu logo fui atendida. Fui para a sala de exames onde a médica fez os procedimentos básicos: pesou, mediu pressão, tirou temperatura, examinou as mamas e deu uma olhada em como as coisas estavam com o Pedro. Depois da consulta, eu, ela e meu marido sentamos pra conversar, e eu escutei aquilo o que eu tanto temia “não há nenhum sinal de trabalho de parto”. Apesar de saber que eu poderia entrar em trabalho de parto a qualquer momento, aquela notícia foi como um tapa na cara pra mim. Eu não aguentava mais esperar, não aguentava mais ser pressionada nem sentir ansiedade absurda. Sem pensar muito, perguntei “Doutora, podemos fazer o parto amanhã?”. Saímos do consultório com tudo resolvido: maternidade, horário, jejum, documentos e autorização do plano. Naquela noite eu não consegui dormir. Quando chegamos em casa, fui checar a mala da maternidade (pronta há quase um mês!) e  separar minhas roupas e documentos, as lembranças e o quadro da porta da maternidade. Eu estava muito cansada, mas não conseguia sair do quarto dele. Fiquei horas ali dentro antes de finalmente deitar. Olhei detalhe por detalhe, fiquei imaginando como seria a sua chegada, rezei, conversei e cantei pro Pedro.

No dia seguinte, um sábado murcho, indeciso entre nublado e ensolarado, chegamos atrasados na maternidade. Acordei com tanto medo da operação que fiz tudo devagar quase parando. Chegamos no hospital,  resolvemos os trâmites básicos para a internação e, quase uma hora depois, fui pro centro cirúrgico. Antes de entrar na sala de cirurgia fiquei num outro espaço por um bom tempo. Lá me colocaram o acesso (doeu pra caramba!!!), o soro, e me explicaram como as coisas iriam acontecer.

Antes da cirurgia começar, fui apresentada para a médica assistente, para o anestesista e pras enfermeiras que auxiliariam no parto. Em seguida, tomei a tal da RAC. Gente, que anestesia é aquela??? Nunca tive uma sensação tão ruim na vida! Pouco tempo depois de aplicada eu já não conseguia mexer minhas pernas, e conforme os minutos foram passando, tive a impressão de que eu não conseguia mexer nada no corpo, parecia que eu tinha um bloco de uma tonelada em cima de mim. Depois da anestesia, a médica pediu pra uma das enfermeiras amarrar meus braços. Eu implorei pra que ela não me amarrasse, questionei o motivo, ponderei, jurei não me mexer (eu nem conseguia, na verdade), mas não adiantou nada.

Meu marido demorou bastante pra entrar, e durante esse tempo em que eu estava sendo operada, mais parecia que as médicas estavam tomando um café na praça de alimentação do Praiamar do que fazendo uma criança nascer. A conversa delas era absurdamente ridícula. Minha médica reclamava das reclamações do marido e sua assistente, muito compenetrada na conversa, dava seu parecer sobre a situação. E eu? Eu tava lá, deitada, puta da vida de ter sido amarrada e me sentindo um pedaço de carne mal amado. Na verdade eu ainda não era um pedaço de carne, fui ser alguns minutos depois, quando começaram a me queimar e o centro cirúrgico ficou um fedor só. Depois dessa parte bacana de corta daqui, queima de lá, o André chegou. O pouco tempo que ele ficou na sala, permaneceu do meu lado fazendo carinho na minha cabeça e perguntando como eu estava. Ele era o único ali dentro que realmente se importava comigo. Conversamos, nos acalmamos e minutos depois a médica disse “tem uma mãozinha aqui”. Nessa hora, meu coração quase pulou pela boca. Não sei se eu fiquei mais nervosa com a possibilidade de cortarem a mão do meu filho sem querer ou por saber que ele estava pra nascer. Disseram que eu ia sentir uma pressão e, às 9h48 do dia 09 de novembro, um choro estridente tomou conta do centro cirúrgico. Meu Pedro havia nascido!

Eu não vi o que aconteceu nem como ele nasceu. Na verdade, depois que ele nasceu, o levaram prum canto do centro cirúrgico pra fazer aqueles procedimentos todos de praxe, e eu fiquei só escutando o choro e perguntando se estava tudo bem. Depois daquela papagaiada de pesar, colocar colírio, virar o menino de cabeça pra baixo e testar uns vinte instrumentos de tortura medieval nele, é que, enfim, me trouxeram o Pedro.  Nessa hora eu senti um misto de alegria e tristeza que dói bastante lembrar. Eu estava amarrada, imóvel, e só conseguia ver o Pedro de canto de olho. A enfermeira que me trouxe ele colocou seu corpinho perto do meu rosto, mas ainda distante para nos tocarmos. Eu chorava muito, então não enxergava meu filho direito. Pedi  pra enfermeira encostar o Pedro em mim, pra colocar seu rosto grudado no meu, e desse jeito, com meus lábios e beijos cheios de amor, toquei no meu filho pela primeira vez.

Pouco tempo depois levaram o Pedro e o André embora. Um foi pro berçário, e o outro foi babar no vidro do berçário. Eu fiquei lá, sendo costurada e escutando conversa fiada, mais uma vez. Antes de ser liberada pro quarto fiquei na mesma sala anterior ao parto pra esperar a anestesia perder o efeito. Não tenho ideia de quanto tempo permaneci lá, só sei que foram muitas horas porque lembro de ter assistido toda a programação porcaria de sábado de manhã da TV Tribuna: jogo de basquete, Rota do Sol, Viver bem, jornal e, quando o Estrelas tava pra acabar, me liberaram pro quarto. Nesse tempo de martírio e ansiedade, eu pedi muitas, muitas vezes pra que me trouxessem o Pedro. Ninguém me atendeu.

Quando eu cheguei no quarto, ele ainda não estava lá. Demorou um pouco até que ele chegasse, todo enrolado no seu cobertor azul e usando o macacão com listras que eu escolhi com tanto amor. Ele era lindo! Ele era a pessoa mais linda que eu já tinha visto na vida! Cheio de cabelo, todo inchadinho e com olhos azuis atentos, aquela coisinha pequenininha tinha saído de dentro de mim! Eu chorei, chorei muito quando o peguei pela primeira vez. Por causa da anestesia, tive que ficar algumas horas deitada pra não ter problema de dor de cabeça, então nosso encontro foi assim: eu deitada e ele deitado em cima de mim. Quando a possibilidade de reação passou, eu enfim levante e peguei meu Pedro no colo de um jeito decente. Nos namoramos, nos reconhecemos, e foi uma delícia.

Ao longo do dia meu quarto foi invadido por enfermeiras querendo me fazendo comer, tomar remédio e me arrastar pra tomar banho. Nos dois dias que ficamos internados elas não paravam de entrar no quarto, era bastante chato até. Depois da cirurgia, tudo ficou mais difícil. Conforme o efeito dos remédios ia passando, tudo doía. Era difícil sentar, andar, deitar e amamentar. Aquela porcaria daquele acesso que ficou pendurado dois dias na minha mão não facilitava as coisas, minha locomoção era bastante restrita. Apesar de muitas mães que fazem cesárea andarem curvadas após o parto, eu me esforcei, e muito, pra me manter reta, mas não conseguia fazer nada sem auxílio. No tempo que fiquei no hospital eu tinha a constante sensação de ter sido atropelada por uma frota de caminhões. Eu sentia bastante dor no corpo, e pra melhorar, tive crises homéricas de cólica. Uma enfermeira logo me avisou quando eu cheguei no quarto “evite falar pra não dar gases”, mas eu ignorei solenemente a moça e me ferrei. Doía tanto, mas tanto, que num determinado momento eu achei que tava enfartando e ia morrer. Foi punk!

Confesso, meu parto não foi nada fácil! Nos dias que seguiram da operação minha recuperação foi lenta e dolorida. Antes mesmo de chegar em casa eu tive reação à medicação que me passaram, então além da dor, eu também fiquei toda cheia de bolinhas e com muita coceira. Eu tinha dificuldade pra andar e sentar, não conseguia pegar o Pedro no colo sem que alguém me entregasse ele, e tomar banho era o momento mais sacrificante do dia. Lavar os pontos me dava calafrios, era péssimo demais, então, por muitos dias, contei com a ajuda da minha mãe e do meu marido, que além do Pedro, também cuidaram de mim.

Junto com a alegria do nascimento do meu filho, por pelo menos 15 dias, eu sofri bastante. Sofri pela minha escolha, feita por medo, ansiedade e despreparo. Sofri uma dor que parto normal nenhum deve bater, já que ninguém fica 15 dias em trabalho de parto. Sofri pra caramba. Hoje, quando eu vejo uma mulher grávida e pergunto sobre a escolha do tipo de parto, já logo falo “querida, você vai sentir muita, muita dor”. Escutei muitas vezes que cesárea era “fácil”, que a recuperação não era nenhum bicho de sete cabeças. Não reproduzo esse mentira de jeito nenhum.

 Hoje, minha escolha seria outra. Eu não me arrependo, mas sinto uma pontinha de tristeza quando lembro das amarras, do descaso e da solidão do momento. Sinto tristeza por saber que essas, infelizmente, são lembranças que muitas outras mulheres têm sobre o dia do nascimento de seus filhos. Lembranças forçadas por um sistema covarde, que fomenta uma cultura cesarista extremamente desnecessária e por seus médicos desrespeitosos.

  • Bruna Reis Ferreira Tacaci

    Melhor texto que já li sobre cesarea. Perfeeitooo!! A sensação que sentimos qdo estamos amarradas e os médicos falando coisas aleatórias, é terrível. Passei pelas mesmas coisas que vc. Com a diferença de que eu queria um parto normal. Mas por falta de conhecimento na época, cai no conto da Dra e parti para uma desnecesarea. Eu amava estar gravida e aguentava mais dias tranquilo com o barrigao. Mas a Dra preferiu escolher o dia do meu filho nascer, mesmo sabendo que a cesarea nunca foi minha vontade. Mas…vida que segue…proxima gestação será tudo diferente! Fé em Deus!!!

  • Geisa Freitas

    Ler esse texto me fez relembrar tudo que passei. Bem parecido..
    Nos sentimos impotentes após tudo isso, a ansiedade prevaleceu e arcamos o pós operatório.
    No meu caso minha BB estava em posição pélvica e a obstetra não dava boas noticias se ela poderia virar, já que estava com peso acima do normal.
    Mas gracas a Deus ela veio ao mundo cheia de saúde.
    E se eu tiver outra oportunidade de um parto, certeza optar pelo “normal”.
    Muito bom este blog meninas.
    Não comento sempre, mas acompanho assim que tem matéria nova.
    Beijos.

  • Cauana Donat

    Obrigada, Geisa, ficamos felizes que você gosta do blog! Infelizmente, a realidade obstétrica brasileira é muito triste, falta muito preparo, respeito e amor no coração dos nossos médicos! No próximo também quero parto normal 🙂

  • Cauana Donat

    Meninas, Bruna! Infelizmente, a realidade obstétrica brasileira é muito triste, e muitas mulheres optam, de forma desnecessária, pela cesariana achando que vão receber um bom tratamento, o que não é verdade. Eu fui muito destratada, e escrevi o texto justamente para alertar quem ainda acredita no mito de que a cesárea é a melhor opção. Nossos médicos são muito despreparados e desrespeitosos, o cenário é assustador! Aqui também pretendo que as coisas sejam diferentes no próximo, boa sorte pra gente! 😉