O nascimento do Pedro: minha nada mole cesárea

Antes de começar meu relato, queria esclarecer uma coisa: o dia do nascimento do meu filho foi o mais feliz e importante da minha vida. A situação poderia ter sido mais respeitosa, humana e romântica, mas não foi isso o que aconteceu. Apesar dos pesares (e bem pesados), o momento do seu nascimento não deixou de ser importante pra mim. Pouco tempo depois que ele nasceu, carreguei em mim a idealização dum parto lindo. O tempo e o conhecimento que adquiri depois de virar mãe me mostraram que, na verdade, eu havia sido mais uma das muitas vítimas de violência obstétrica, infelizmente.

Era uma sexta-feira, e naquele dia eu completava 39 semanas de gestação. Eu estava enorme, havia engordado 18 quilos e estava muito inchada. Minha barriga doía, minhas costas doíam, minha ansiedade estava a mil e eu não aguentava mais escutar as pessoas perguntando se meu filho nascia ou não. Por conta da perda da gestação anterior, passar das 40 semanas não era uma possibilidade que eu e meu marido havíamos cogitado, mesmo sabendo que a gravidez pode chegar ou passar de 42 semanas. No final daquele dia eu tinha consulta na obstetra, e já tinha combinado com o André de conversarmos sobre uma cesárea com a méidca caso as coisas parecessem devagar. Confesso que eu não aguentava mais estar grávida. Tudo me incomodava: as dores, o peso, os pés e a ansiedade, que me remoia demais. Eu também estava com medo, muito medo.

Chegamos no consultório e eu logo fui atendida. Fui para a sala de exames onde a médica fez os procedimentos básicos: pesou, mediu pressão, tirou temperatura, examinou as mamas e deu uma olhada em como as coisas estavam com o Pedro. Depois da consulta, eu, ela e André sentamos para conversar, e eu escutei o que tanto temia “não há nenhum sinal de trabalho de parto”. Apesar de saber que eu poderia entrar em trabalho de parto a qualquer momento, aquela notícia foi como um tapa na cara pra mim. Eu não aguentava mais esperar, não aguentava mais ser pressionada nem sentir aquela ansiedade absurda. Sem pensar muito, perguntei se poderíamos fazer o parto na manhã seguinte. Saímos do consultório com tudo resolvido: maternidade, horário, jejum, documentos e autorização do plano. Naquela noite eu não consegui dormir. Quando chegamos em casa, fui checar a mala da maternidade (pronta há quase um mês!) e  separar as minhas roupas e documentos. Eu estava muito cansada, mas não conseguia sair do quarto do Pedro. Fiquei horas ali dentro antes de finalmente deitar. Olhei detalhe por detalhe, fiquei imaginando como seria a sua chegada, rezei, conversei e cantei pra ele.

No dia seguinte, um sábado murcho, indeciso entre nublado e ensolarado, chegamos atrasados na maternidade. Acordei com tanto medo da operação que fiz tudo muito devagar.Quase uma hora depois, fui pro centro cirúrgico. Antes de entrar na sala de cirurgia fiquei num outro espaço por um bom tempo. Lá me colocaram o acesso (que doeu pra caramba!), o soro, e me explicaram como as coisas iriam acontecer.

Antes da cirurgia começar, fui apresentada para a médica assistente, para o anestesista e para as enfermeiras que auxiliariam no parto. Em seguida, tomei a RAC, que é horrível. Pouco tempo depois eu já não conseguia mexer minhas pernas, e conforme os minutos foram passando, tive a impressão de que eu não conseguia mexer nada no corpo, parecia que eu tinha um bloco de uma tonelada em cima de mim. Depois da anestesia, a médica pediu para uma das enfermeiras amarrar meus braços. Eu implorei para que ela não me amarrasse, questionei o motivo, ponderei, jurei não me mexer (eu nem conseguia, na verdade), mas não adiantou nada.

André demorou bastante para ser liberado e entrar no centro cirúrgico, e durante esse tempo em que eu estava sendo operada, mais parecia que as médicas estavam tomando um café do que fazendo uma criança nascer. A conversa delas era absurda! Minha médica contava sobre as reclamações do seu marido sobre ela estar trabalhando muito e sua assistente, muito compenetrada na conversa, dava seu parecer sobre a situação. E eu? Eu estava lá, deitada, puta da vida de ter sido amarrada e me sentindo um pedaço de carne mal amado. Na verdade eu ainda não era um pedaço de carne, fui ser alguns minutos depois, quando começaram a me queimar e o centro cirúrgico ficou um fedor só. André chegou, e o pouco tempo que ficou na sala permaneceu do meu lado fazendo carinho na minha cabeça e perguntando como eu estava. Ele era o único ali dentro que realmente se importava comigo. Conversamos, nos acalmamos e minutos depois a médica disse “tem uma mãozinha aqui”. Nessa hora, meu coração quase pulou pela boca. Não sei se eu fiquei mais nervosa com a possibilidade de cortarem a mão do meu filho sem querer ou por saber que ele estava para nascer. Disseram que eu ia sentir uma pressão e, às 9h48 da manhã, um choro estridente tomou conta do centro cirúrgico. Meu filho havia nascido.

Eu não vi o que aconteceu nem como ele nasceu. Na verdade, depois que ele nasceu, o levaram para um canto do centro cirúrgico para fazer os tais procedimentos dos quais os bebês são submetidos, e eu fiquei escutando seu choro e perguntando se ele estava bem. Depois de pesarem, pingarem aquele colírio ardido e virarem o menino de cabeça pra baixo para testar uns vinte instrumentos de tortura medieval, é que enfim, me trouxeram o Pedro. Nessa hora eu senti um misto de alegria e tristeza que dói bastante lembrar. Eu estava amarrada, imóvel, e só conseguia ver o Pedro de canto de olho. A enfermeira que me trouxe ele colocou seu corpinho perto do meu rosto, mas ainda distante para nos tocarmos. Eu chorava muito, então não enxergava ele direito. Pedi  para a enfermeira encostar o Pedro em mim, para colocar seu rosto grudado no meu, e desse jeito, com meus lábios e beijos cheios de amor, toquei no meu filho pela primeira vez.

Pouco tempo depois levaram Pedro para o berçário e tiraram André dali. Não deram o menino para o pai segurar no colo. Eu fiquei ali, sendo costurada, escutando conversa fiada mais uma vez. Antes de ser liberada para o quarto, fiquei em uma sala para esperar a anestesia perder o efeito. Não tenho ideia de quanto tempo permaneci lá, só sei que foram muitas horas porque lembro de ter assistido toda a programação de sábado de manhã da TV. Nesse tempo de martírio e ansiedade eu pedi muitas, muitas vezes para que me trouxessem o Pedro. Ninguém me atendeu.

Quando finalmente fui liberada para o quarto, Pedro ainda não estava lá. Demorou um pouco até que ele chegasse, todo enrolado no seu cobertor azul e usando seu macacão de listras que eu havia escolhido. Ele era lindo! Ele era a pessoa mais linda que eu já tinha visto na vida! Cheio de cabelo, todo inchadinho e com olhos azuis atentos: aquela coisinha pequenininha tinha saído de dentro de mim! Eu chorei muito quando o peguei pela primeira vez. Por causa da anestesia tive que ficar algumas horas deitada para não ter problemas de dor de cabeça, então nosso encontro foi assim: eu deitada e ele deitado em cima de mim. Quando a possibilidade de reação passou, eu enfim levante e peguei meu filho no colo de um jeito decente. Nos olhamos, nos reconhecemos e foi lindo .

Ao longo do dia meu quarto foi invadido por enfermeiras querendo me fazendo comer, tomar remédio e me arrastar para tomar banho. Nos dois dias que ficamos internados elas não paravam de entrar no quarto, era bastante chato até. Depois da cirurgia, tudo ficou mais difícil. Conforme o efeito dos remédios ia passando, tudo doía. Era difícil sentar, andar, deitar e amamentar. Aquela porcaria daquele acesso que ficou pendurado dois dias na minha mão não facilitava as coisas, minha locomoção era bastante restrita. Apesar de muitas mães que fazem cesárea andarem curvadas após o parto, eu me esforcei muito para me manter reta, mas não conseguia fazer nada sem auxílio. No tempo que fiquei no hospital eu tinha a constante sensação de ter sido atropelada por uma frota de caminhões. Eu sentia bastante dor no corpo.

Meu pós parto não foi fácil. Nos dias que se seguiram minha recuperação foi lenta e dolorida. Antes mesmo de chegar em casa eu tive reação à medicação que me passaram, então além da dor, eu também fiquei toda cheia de bolinhas e com muita coceira. Eu tinha dificuldade para andar e sentar, não conseguia pegar o Pedro no colo sem que alguém me entregasse ele, e tomar banho era o momento mais sacrificante do dia. Lavar os pontos me dava calafrios, e por muitos dias contei com a ajuda da minha mãe e do André pra cuidar de mim.

Junto com a alegria do nascimento do meu filho, por pelo menos 15 dias, eu passei bons perrengues. Sofri pela minha escolha, feita por medo, desinformação e ansiedade, sofri uma dor física muito mais intensa que qualquer parto normal, já que ninguém fica em TP por 15 dias. Hoje, quando tenho contato com alguma gestante, dentro das possibilidades de uma conversa respeitosa e não invasiva, conto meu relato e falo sobre as dificuldades do pós operatório. Escutei muitas vezes que cesárea era fácil e que a recuperação era tranquila. Não reproduzo esse mentira de jeito nenhum.

Se eu tivesse o conhecimento e as informações que tenho hoje, provavelmente minha escolha teria sido outra. Carrego comigo uma sensação ambígua de arrependimento e tranquilidade em acreditar que, naquele momento, naquele contexto e naquela circunstância, minha escolha foi o que pude fazer, mas também sinto tristeza quando lembro das amarras e do descaso. Sinto tristeza por saber que essas são as lembranças que muitas outras mulheres levam sobre o nascimento de seus filhos. Lembranças forçadas por um sistema covarde, que fomenta uma cultura cesarista desnecessária e que se alimenta da falta de profissionalismo e respeito de grande parte dos médicos que existem por aí.

  • Bruna Reis Ferreira Tacaci

    Melhor texto que já li sobre cesarea. Perfeeitooo!! A sensação que sentimos qdo estamos amarradas e os médicos falando coisas aleatórias, é terrível. Passei pelas mesmas coisas que vc. Com a diferença de que eu queria um parto normal. Mas por falta de conhecimento na época, cai no conto da Dra e parti para uma desnecesarea. Eu amava estar gravida e aguentava mais dias tranquilo com o barrigao. Mas a Dra preferiu escolher o dia do meu filho nascer, mesmo sabendo que a cesarea nunca foi minha vontade. Mas…vida que segue…proxima gestação será tudo diferente! Fé em Deus!!!

  • Geisa Freitas

    Ler esse texto me fez relembrar tudo que passei. Bem parecido..
    Nos sentimos impotentes após tudo isso, a ansiedade prevaleceu e arcamos o pós operatório.
    No meu caso minha BB estava em posição pélvica e a obstetra não dava boas noticias se ela poderia virar, já que estava com peso acima do normal.
    Mas gracas a Deus ela veio ao mundo cheia de saúde.
    E se eu tiver outra oportunidade de um parto, certeza optar pelo “normal”.
    Muito bom este blog meninas.
    Não comento sempre, mas acompanho assim que tem matéria nova.
    Beijos.

  • Cauana Donat

    Obrigada, Geisa, ficamos felizes que você gosta do blog! Infelizmente, a realidade obstétrica brasileira é muito triste, falta muito preparo, respeito e amor no coração dos nossos médicos! No próximo também quero parto normal 🙂

  • Cauana Donat

    Meninas, Bruna! Infelizmente, a realidade obstétrica brasileira é muito triste, e muitas mulheres optam, de forma desnecessária, pela cesariana achando que vão receber um bom tratamento, o que não é verdade. Eu fui muito destratada, e escrevi o texto justamente para alertar quem ainda acredita no mito de que a cesárea é a melhor opção. Nossos médicos são muito despreparados e desrespeitosos, o cenário é assustador! Aqui também pretendo que as coisas sejam diferentes no próximo, boa sorte pra gente! 😉