O nascimento de Marina

Era sábado de manhã, dia 22 de março. Acordei cedo pois tinha marcado de fazer a unha, mas senti que cólicas começavam a dar sinal, pareciam cólicas menstruais. Ao ir ao banheiro, percebi algo diferente: será que isso é o tampão que falaram na “aula” sobre trabalho de parto? Sim, fiz uma bizarrice: tirei foto do tal tampão e mandei para a obstetriz “É isso mesmo, Driele?”. E ela respondeu “Obaaaa, tampão saindo!”. Falei que estava com umas dores leves, ela orientou que eu poderia fazer algumas coisas para aliviar, mas para não ficar ansiosa. A perda de tampão não indicava trabalho de parto imediato… poderia levar dias para ter início a jornada. Mas não tinha como: a ansiedade veio à tona! Acordei o Fabrício, meu marido, e falei que não tinha mais tampão. A animação e o medo começaram a invadir.

Respirei fundo, resolvi baixar a expectativa e racionalizar. Sabendo que esses eram indícios, mas não um trabalho de parto, decidi seguir a programação que tinha. Fui ao salão e, como de costume, a manicure comentou “E esse bebê, não sai não?”. Para ela, contei o que estava sentindo. “Hum, essa criança vai nascer amanhã! Tenho certeza!”, disse.

Voltei para casa, almocei e passei o dia todo apenas com pequenas cólicas, que incomodavam mais do que doíam. A todo o momento me lembrava de uma das dicas preciosas que lia nos grupos de parto: quando sentir que o trabalho de parto está se aproximando, descansar e guardar energia, pois trabalho de parto não tem esse nome à toa. Passei a tarde descansando, até porque tinha um aniversário à noite e queria ir. Porém, a noite chegou e as dores continuaram chatas; eu e o marido decidimos ficar em casa.

Para passar o tempo, fui organizar o que faltava; assim, se as coisas engrenassem, estaria tudo pronto. Muita coisa da minha pequena ainda estava por fazer: a cômoda não tinha chegado, as roupas estavam apenas parcialmente passadas, e o material necessário para o parto domiciliar – fraldas de pano, lençóis, etc – ainda não estava devidamente separado. Como sempre, tinha deixado tudo para a última hora – tão típico! Então minha noite foi dividida entre arrumar e relaxar, arrumar e relaxar.

Troquei mensagens com minha irmã, disse que estava com cólicas (coincidentemente ela – que não estava grávida – também estava com cólicas) e ficamos nos falando um pouco pelo whatsapp. Também fiquei trocando mensagens com a Driele durante a noite e deitei por volta de meia-noite e meia.

Durante a madrugada, o “caldo engrossou”: as dores começaram a se intensificar.  Não consegui dormir muito, pois além de não encontrar posição para ficar, a dor remoía e não me deixava pegar no sono. Levantei de vez às nove da manhã do domingo, já que as tais cólicas chatinhas de sábado já estavam bem mais intensas.

Fui tomar um banho quente para aliviar. Quando saí do chuveiro, ainda enrolada na toalha, sentei na cama para conversar com o marido sobre o que estava sentindo. Ao levantar, surpresa! Uma pequena poça de água na cama!

Entrei em contato com a Ellen, que disse que, pelo que eu relatava, provavelmente era bolsa rota, mas uma rotura alta, havia pouco líquido. Ela pediu que eu descansasse e que meu marido fosse monitorando as contrações. Enquanto não ritmassem, nem estivessem com intervalo menor que 10 minutos, eu não estaria em trabalho de parto.

 Nesse meio tempo, falei com minha irmã. Ela havia me mandado mensagem perguntando se as cólicas haviam melhorado (“não muito”, respondi) e contou que meu sobrinho de um ano havia acordado naquele dia me chamando e chamando por Marina (“acho que ele está sentindo alguma coisa”, disse ela). Espero que sim, pensei na hora.

Tentei dormir, mas não consegui – só depois fui perceber como a pior posição possível era deitada! As dores e a ansiedade eram fortes. Ficava imaginando que talvez ao final daquele dia eu teria minha bebê em meus braços. Esse pensamento me emocionava demais!

De dores chatas a incômodas, comecei a perceber que elas irradiavam para as costas. O marido começou a contar e pronto: as cólicas entraram num ritmo. Estávamos em TP! Eufóricos, ligamos para a doula, que veio para casa.

Ao chegar, ela já foi monitorando as contrações e me auxiliando a aliviar a dor, sem usar qualquer medicação: ora usávamos água quente, ora era bola de pilates, e em um momento, água quente (chuveiro) com bola de pilates. Essa combinação não deu muito certo, pois desastrada como sou, escorreguei da bola de pilates dentro do chuveiro! Imaginem a cena de uma gestante gigante escorregando e rindo: É HOJE QUE ESSE BEBÊ NASCE!

Pedi para a Ellen ligar para a Larissa – fotógrafa que havia entrado em contato comigo dias antes, por indicação da equipe, pois queria fotografar um parto domiciliar e tinha perguntado se poderia ser o meu. Elas trocaram mensagens sobre o andamento do trabalho de parto e Larissa ficou de vir um pouco mais tarde.

Mais contrações, e mais atividade para amenizar a dor. E eram exercícios -caminhada, agachamento, “reboladas”-, massagem, acupuntura… com todo esse aparato, consegui levar as contrações tranquilamente. Se doíam? Doíam sim! Mas eu lidava bem com elas, e conseguia até conversar nos intervalos.

Eu e a Ellen estávamos em uma grande sintonia (por isso que digo que empatia e sintonia com a doula é fundamental). Ela já havia percebido o que mais me aliviava e me ajudava a fazer tudo. Uma das memórias mais intensas que tenho é dela sentada no sofá da minha sala e eu de cócoras, apoiando meus 99 quilos em suas pernas e tendo contrações. Meu suporte perfeito!

Enquanto isso, meu marido tentava de toda maneira nos auxiliar no que era possível… ainda um pouco atordoado, resolveu sair para comprar comida, afinal, não sabíamos quanto tempo aquele verdadeiro trabalho iria demorar e eu precisava repor minhas energias – “saco vazio não para em pé”. Pego pela memória a cena dele me perguntando o que eu queria comer e eu respondendo, no meio de uma contração, “qualquer coisa, só vai logo”. O medo de que ele demorasse e a bebê nascesse nesse meio tempo era grande e minha língua não tinha freio – por favor, perdoem as mulheres em trabalho de parto, elas não sabem o que dizem!

O espaço entre uma contração e outra foi diminuindo, diminuindo. Fabricio voltou do mercado com várias comidinhas. Tentava me dar algo, insistia, e eu não queria, não sentia fome. Líquido, quero líquido! Gatorade, suco, água, água de coco… Bebi de tudo!

Quando as contrações estavam de 3 em 3 minutos, a enfermeira e a obstetriz chegaram. Resolvemos fazer um exame de toque para ver como estava tudo. Eu estava animada e confiante de que a chegada de Marina se aproximava.

“Cinco centímetros! Estamos na metade, força!” Como??? Cinco centímetros, SÓ??? Não é possível… Estava certa de que já tinha atravessado muito mais que a metade da jornada. Mas se agora estou aqui, vou me entregar!

Rose e Driele trouxeram consigo, dentre seus equipamentos para o parto, uma piscina inflável. Montaram e começaram a encher com água bem quentinha… Quando finalmente entrei ali, foi a glória! QUE ALÍVIO! Se eu soubesse como essa piscina com água quente era boa, tinha providenciado uma para ficar desde o início do trabalho de parto – a louca da piscina!

Quando entrei na piscina, relaxei muito. Que delícia. Consegui até dormir durante as contrações. Sim, eu dormi – e tenho quatro pessoas para confirmar isso! Isso porque o espaço entre as contrações já estava bem curto, creio que cerca de um minuto e meio. Durante todo esse tempo, meu marido estava lá, ao meu lado (sim, o mesmo marido que dizia que não seria meu acompanhante no hospital). Ele me apoiava, me dava comida, bebida, fazia massagem, auxiliava nos exercícios… estava em trabalho junto comigo.

Acordei na piscina com uma contração muito forte. Quando ela passou, quis ir ao banheiro. Na volta, a enfermeira pediu que eu fosse para a cama verificar novamente a dilatação.

Dilatação total! Agora iria começar a brincadeira, certo? Errado! A bebê ainda estava muito alta… Não descia. Então vamos fazer exercícios! A cada contração, eu me segurava no marido e agachava, ficava de cócoras. Nessas horas, pensava “por que mesmo abandonei a academia, hein?” Aquilo era mais difícil que qualquer exercício de musculação! Mas fui forte e continuei. Contração, eu descia. Contração de novo, descia novamente.

As meninas deixaram eu e Fabricio a sós no quarto, nos nossos exercícios, na nossa cumplicidade, no escuro e no silêncio. Eu me apoiava com toda a força nele, me jogava nos braços dele. De repente, o que é isso? Que vontade de fazer força… Forçaaaaa!

Dei um urro forte e a equipe, que estava na sala, foi para o quarto. Elas me auxiliaram a voltar pra banheira, e me disseram que provavelmente iam começar os puxos. Expulsivo, lá vamos nós!

Sentei num banquinho e, quando meu corpo pedia, eu juntava todas as minhas forças e empurrava, o máximo que conseguia. Empurrava umas quatro vezes seguidas e parava. Passava a vontade. A natureza é realmente sábia! Vinha a vontade novamente, e então empurrava… mais umas quatro vezes. Não sei quantas vezes foram isso, pra mim pareceram apenas dez minutos – depois descobri que levou uma hora.

Nesse meio tempo, aconteceu de tudo: a fotógrafa chegou (minha casa não é um lugar tão fácil de chegar para quem vem a primeira vez, e ela se perdeu, tadinha!), teve foguetório no bairro (durante os urros, que bom!) e até minha irmã ligou (durante os descansos, que bom!).

Sobre minha irmã, lembro de ouvir o telefone tocando, tocando e pedi para o Fabrício atender. Minha irmã – que não sabia de absolutamente NADA do que estava acontecendo – perguntou ao meu marido se eu estava bem (lembram que eu tinha trocado mensagens com ela pois estava com cólicas?) e Fabrício respondia “tá, tá sim!”. Ele tentava se desvencilhar do assunto, como medo que eu começasse a gritar novamente e precisasse do seu suporte e ela puxava assunto…

Voltamos ao ritmo de trabalho, e então comecei a sentir a cabeça saindo: “ela está saindo, está coroando” alguém falou. Mas Marina parou. Não saía. Rose – ou Driele, eu já nem sei quem falava o quê –  pediu que eu ficasse de quatro. Fiquei, elas fizeram uma manobra e eu senti ela saindo por completo.

Não sabia o que estava acontecendo. Era muita coisa junta e eu estava na verdadeira “partolândia”. Mas eu sabia que estava tudo bem. Confiava em tudo que estava acontecendo ao meu redor. E mesmo sem ver muita coisa naquela hora, confiava. Eu sabia o que estava vivendo.

Minha pequena foi amparada, teve o cordão cortado e precisou de ajuda para respirar nos primeiros segundos, mas logo ficou bem. Finalmente saí daquela posição que estava e sentei na piscina. Sentia como tendo corrido uma maratona, mas toda a dor, todo o desconforto, tudo havia sumido. Sequer conseguia lembrar do que tinha passado “será que tinha doído mesmo?”. Sim, na hora em que o bebê nasce, passa tudo!

Olhei ao meu redor. E vi aquela cena. Fabrício com ela no colo, fitando-a com os olhos inundados de amor e ternura. Com ajuda, pude sair da piscina e ir para a cama, onde recebi nos braços aquele serzinho que carreguei em meu ventre por quase 40 semanas.

Marina, morena, linda, com aqueles olhos expressivos e aquela boca em formato de coração. Meu coração disparou “é ela, é ela”. Não consegui chorar, estava anestesiada demais de emoção. Marina chegou a este mundo há quase um ano, em 23 de março de 2014, às 20 horas, dentro do nosso quarto, pesando 3,135 kg de muito amor e medindo 49 cm de felicidade.

Dizem que quando se é mãe, se conhece o verdadeiro amor. Não concordo. Já havia conhecido o amor: da minha família, do meu marido, dos meus amigos. Mas ser mãe é conhecer o maior amor. O amor inabalável, inigualável, que faz perder o ar. O amor do “mato e morro”, do cheiro, da pele. O amor do mesmo sangue. Dizem que é ter o coração batendo do lado de fora do peito. E eu acho que é ver a maravilha do mundo resumida em um serzinho tão pequeno.

Gratidão ao Universo por poder ter vivenciado tudo isso: da gestação, passando pelo parto e culminando no nascimento do meu grande amor. E esse é só o começo…

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* Todas as imagens são de autoria da fotógrafa Larissa Reis