As razões do meu parto domiciliar

Desde que fiquei grávida, tinha claro em minha mente que queria um parto normal. Isso era algo muito certo, mais certo do que o nome do bebê que estava por vir (que foi difícil decidir!). Pra mim, gestação era algo natural, fisiológico, e como tal, não havia a necessidade de intervenções médicas e/ou cirúrgicas. Mas nunca imaginei que seria tão difícil conseguir meu sonhado parto normal. Nunca imaginei o quão complicado é o sistema de saúde, que te leva a fazer coisas que você não quer, por conveniência de toda uma rede.

Ainda com 20 semanas, lendo muito sobre parto, decidi que não queria fazer parte desse sistema. Entrei num site sobre doulas (www.doulas.com.br) e peguei todos os contatos da Baixada. Mandei e-mail para todas contando da gestação e pedindo algum auxílio. Muitas me responderam e, mesmo com as respostas, acabei deixando o assunto um pouco pra lá. Não marquei de conversar pessoalmente com nenhuma delas.

Enquanto isso, a gestação prosseguia. Eu, sendo acompanhada pelo meu ginecologista, perguntava em toda a consulta sobre o parto normal: “sua gestação está ótima, não haverá problemas”, “você tem tudo para ter o seu sonhado parto normal”, “não tem problema que a gestação passe de 40 semanas, se estiver tudo ok, podemos esperar”, “não há tempo determinado para um trabalho de parto, cada corpo é de um jeito”. O médico respondia às minhas questões e eu me sentia segura – mesmo sabendo que ele não fazia parte da lista dos “humanizados”. Eu lia muito sobre os chamados “GOs fofinhos”, sobre parir pelo plano, sobre tudo… Mas não via muita alternativa: como meu plano não cobria a consulta com nenhum dos poucos médicos de fora da lista negra, continuava seguindo o pré-natal com ele. E até aquele momento, não havia nada que desabonasse meu médico.

Mesmo não estando “ainda” com uma doula, minha paixão por esse mundo da humanização continuava. Lia tudo sobre parto natural, fazia parte de inúmeros grupos, pesquisava sobre casas de parto, obstetras humanizados até que… cheguei ao parto domiciliar. Domiciliar? Como assim, ter bebê em casa, como fazia-se antigamente, com parteira e tudo mais? Que absurdo, coisa de gente doida! Sim, essa fui eu, do alto do meu preconceito e desinformação, quando uma amiga gestante como eu me sugeriu o parto domiciliar, que era a escolha dela. Mas foi só eu começar a ler, ver vídeos, conversar com outras pessoas para me ver nesse mundo. Agora parir não era suficiente: pra mim, naquele momento, TINHA QUE SER EM CASA.

Já um pouco louca, um pouco apaixonada, comecei a conversar com o marido sobre a ideia. Ele, que nunca teve dúvidas de que eu pariria, arqueou as sobrancelhas “como assim, EM CASA?”. (aqui abro parênteses: desde que fiquei grávida, meu marido sempre dizia que NÃO seria meu acompanhante no parto, que só de me imaginar lá, “sofrendo”, só de pensar no sangue, no hospital, ele já tinha calafrios. Então combinamos que minha irmã seria minha acompanhante no hospital.)

Enfim, comecei a enviar todos os relatos, vídeos, tudo para que ele lesse também. Mas ele não se interessava. Cada vez que eu perguntava se ele havia lido algo que eu tinha mandado, ele mudava de conversa.

Aquela situação me angustiava! A cada dia eu tinha mais certeza de que o hospital não era o meu lugar! Mas eu sentia necessidade do apoio dele, aquilo pra mim era fundamental. Além disso, junto com a repulsa do hospital que aumentava a cada dia, começavam a pipocar as notícias sobre o cenário obstétrico da Baixada Santista: hospitais fechando maternidades, outros se recusando a atender gestantes em trabalho de parto… um verdadeiro caos!
Resolvi sair da inércia. Entrei em contato com a Rose Pereira, enfermeira que acompanharia o parto domiciliar de minha amiga. Quanta tranquilidade e amabilidade! Foi amor ao primeiro contato – mesmo que por Facebook. Falei das dúvidas do marido e ela disse que era natural, sugeriu que marcássemos um encontro para que pudéssemos conversar melhor. Comentei com meu marido sobre isso e ele topou o encontro. Ufa! Ponto positivo. As coisas pareciam se encaminhar. Então marcamos de conversar.

Era uma tarde de janeiro, estávamos de férias, e eu já me aproximava das 30 semanas de gestação. Chegamos ao consultório e fomos recebidos com sorrisos e abraços. A conversa foi longa e muito esclarecedora. Durante todo o tempo, a sensação que eu tinha é que já a conhecia há anos. Além disso, sua voz, seus relatos, sua experiência me passavam uma segurança sem precedentes para mim. Sentia meu coração se encher de amor. Sentia ardendo por dentro: era aquilo que eu queria. Era aquela mulher que eu precisava que estivesse ao meu lado no meu momento!

Terminada nossa longa reunião – que foi longa, mesmo que tenha fluído tão bem que pareceram poucos minutos -, nos despedimos e eu e meu marido fomos para o nosso carro. Eu flutuava. Assim que entrei, perguntei a ele “e aí?”. Ele sorriu e disse “bom, se é isso que você quer… acho que é o que precisamos”.

E então eu e o marido decidimos: nossa filha nascerá em casa! Será recebida em seu quarto, em seu canto, sem intervenções desnecessárias, vindo ao mundo a seu tempo e tendo ao seu redor apenas quem nós quisermos!
Que felicidade! Mas ainda havia trabalho pela frente… Precisávamos ler e estudar MUITO para que tudo corresse bem. Precisávamos nos “empoderar” – a palavra chave no mundo da humanização -, trabalhar o físico e principalmente o psicológico. Precisávamos nos conectar, acabar com nossos medos e anseios. E começamos a fazer isso.

Primeiro, fui em busca de uma doula. Cacei aqueles e-mails enviados lá atrás e reli… um deles me chamou atenção e marquei uma conversa pessoalmente. Como minha casa passava por uma reforma – sim, reformei minha casa estando no final da gestação -, meus dias de férias se dividiam entre a casa dos meus pais e a casa dos meus sogros. Nesse dia eu estava na casa dos meus pais e foi lá que combinei de conhece-la.

Assim que ela chegou, fomos para um quarto a portas fechadas para que pudéssemos conversar melhor; afinal, NINGUÉM sabia dos planos de parto domiciliar. Nem mãe, nem pai, nem irmã, nem cachorro, periquito ou papagaio. Os planos incluíam apenas eu e o marido.

Ela começou a falar bastante – achei um barato – e ao final ainda comentou “eu falo pra caramba, né?”. Dei risada, me encantei na hora com aquela pessoa doce e tagarela. Estava feito. Agora eu tinha uma doula: Ellen Infante.

Os dias se passavam e a preparação continuava. Enquanto eu fazia o pré-natal com meu ginecologista, fazia também um pré-natal “paralelo” com a equipe do parto domiciliar. Numa das consultas, conheci a outra metade da dupla: Driele Alia, obstetriz. Com a voz doce, o jeito angelical e o ar de menina, também conquistou meu coração de cara. A identificação com a MINHA equipe aumentava a cada dia. As conversas eram detalhadas e minuciosas, eu chegava cheia de interrogações e saía leve, como se estivesse nas nuvens. Já em casa, Ellen me orientava com exercícios físicos – com e sem bola de pilates -, exercícios e massagens no períneo, fazia acupuntura e conversava muito comigo, me trazendo paz e calma.

Enquanto isso, eu sentia um leve terrorismo vindo de meu ginecologista. Apesar de sempre falar que minha gestação era de “baixo risco”, eu sentia que ele começava a colocar empecilhos em meu parto. Ora era porque minha pressão oscilava nas consultas (mesmo que eu NUNCA tenha apresentado pressão alta em nenhum momento, apenas em alguns segundos de algumas consultas), ora era porque meu peso – que foi bastante estável na gestação toda – chegou a aumentar um quilo por semana na reta final.

O médico – por razões mais do que óbvias – não sabia das minhas intenções de parto domiciliar. Para ele eu dizia que iria parir com o plantonista no Hospital São Lucas, pois não tinha condições de pagar os 4 mil reais que ele insistia em me cobrar pelo parto ou 3.500 pela cesárea. “A cesárea é mais barata mesmo, é assim”, dizia ele. Só que eu estava segura demais para cair no conto dele. Pelo menos assim eu achava.

Chegamos às 39 semanas de gestação. E mesmo sabendo que uma gestação pode ir saudavelmente até 42 ou mesmo 43 semanas, confesso que a ansiedade batia à porta. Não tive pessoas “cobrando” a saída do bebê – acho que minha fama de “resposta na ponta da língua” contribuiu pra isso -, mas eu torcia para que a jornada chegasse logo ao final.
Com 39 + 3, tive mais uma consulta com o “dotô” – àquela altura, as consultas eram semanais. Era uma sexta-feira e eu tinha entrado de licença maternidade naquela semana, na segunda-feira. Estava à disposição de Marina.

O médico examinou, mediu, verificou batimento, tudo o que é de “praxe”. Então pediu que eu deitasse na maca para que ele fizesse o toque e verificasse o estado do colo. E eu, empoderada até o último fio de cabelo, ciente do quão desnecessário é o toque nesse momento, cedi.
Deitei e ele fez. Foi rápido, mas dolorido.
– Xiii!! Bebê alto, colo grosso, tão cedo ela não sai daí
– Não tem problema. O senhor disse que uma gestação pode passar das 40 semanas sem problemas…
– É, mas passando das 40 semanas complica.
– Como assim, “complica”?
– Ah, aí você vai ter que ir dia sim, dia não ao hospital para verificar batimentos, ver se está tudo bem.
– Não tem problema, eu vou.
– Passando das 40 semanas, aumentam os riscos.
– Riscos, que riscos?
– De sofrimento fetal, de mecônio…
Ahhhhh, GO fofinho. Mostrando as garras nas 39 semanas.
– Estou disposta a esperar entrar em trabalho de parto.
– Olha, pelo estado do seu colo, vai demorar umas duas semanas ainda. Se fosse minha esposa, eu recomendaria não chegar às 41 semanas. Vamos fazer o seguinte: na próxima consulta, você vai estar de 40 semanas + 3. Se seu bebê não nascer até lá, na hora eu já ligo pra um amigo meu que é plantonista no Hospital São Lucas e nós agendamos sua cesárea com ele.

Sequer respondi. Aquilo parecia tão surreal que minha vontade era de sair correndo. Ele acabou o exame, me entregou a carteirinha, me cumprimentou e disse um “até semana que vem”.

Saí do prédio tremendo. Da rua, liguei para o marido. Apavorada. Desesperada. Sim, eu que tinha um parto domiciliar planejado. Sim, eu que estava empoderada. Sim, eu que estava muito bem informada, tremi. Gritava ao telefone “Se Marina não nascer até quinta-feira que vem, eu sumo! Não apareço nesse médico. Não apareço! Qual vai ser o problema? Vão me caçar? Não vão! Eu sumo desse cara… Ele quer me levar pra faca! Que ooooooódio!”. Parecia uma maluca, gritando e tremendo na rua.

Mais calma, resolvi que precisava espairecer. Saí para jantar com o marido, tentei esquecer a doideira do médico. E até que esqueci. Mas mal sabia que o dia estava chegando.

  • Ana Zanchetta

    quando continua a sua história?

  • Ana, semana que vem concluiremos esse texto. Além do blog, nós também temos uma página no Facebook onde você pode acompanhar as atualizações do que escrevemos. Nosso endereço por lá é https://www.facebook.com/prafalardefilho 🙂