Pequenas doses de felicidade

Sentada em minha cadeira a observo. Suas mãos ágeis, seus gritos, suas falas incompreensíveis. Suas pernas um tanto bambas, um tanto fortes. Sua risada, ah, sua risada… Daquele tipo que dá vontade de gravar e ficar ouvindo initerruptamente.

Tateia daqui, tateia dali. “Experimenta” algumas coisas – a boca é o sensor dos bebês! -, joga outras, puxa mais algumas. E o seu rostinho? Olhos atentos, cara de quem desbrava o mundo. O que será que se passa na cabeça dela? O que será que pensa enquanto olha a bola vermelha, o pianinho, a boneca cabeçuda?

Estamos em nossa pequena sala, seu mundo particular, onde ela deita, rola, engatinha, cai, levanta, ri – e muito – e chora também. Onde eu leio pra ela, brinco com ela, canto pra ela, danço com ela. Ah, dançar com ela…

A música está presente nesse momento. Meu pensamento está solto, leve, sequer consigo prestar atenção na melodia. Meus olhos são dela. Minha mente é dela.

Uma nova música começa. Uma música antiga, gostosa de dançar juntinho, de rosto colado. Como que por impulso, me levanto e começo a cantar e dançar. Ela me olha, assustada, e abre um sorriso largo, daqueles que iluminam quilômetros, que quebram as pernas, que faltam o ar.

Me falta o ar. Ela olha pra mim e bate palminhas, enquanto danço e canto. Me abaixo e a tomo em meus braços: “agora és minha parceira!” Como se soubesse exatamente o que fazer, ela coloca a mão em meu ombro e joga o corpinho pra trás. E rodopiamos, como se estivéssemos num salão de baile.

A música invade nossos corpos, por um instante sinto que voltamos a ser uma só. Nove meses em meu ventre, nove meses fora dele… Como chegamos até aqui?

O som da melodia vai diminuindo, diminuindo, a música termina. Estamos exaustas e felizes. Ela solta um suspiro, e eu aproveito a sensação indescritível daquele momento tão pequeno, mas tão puro. Tão mágico. Tão nosso.

Ela aproxima a cabeça de meu ombro e deita. Sinto seu cheiro único e inconfundível. Beijo sua cabeça; meus olhos se enchem de lágrimas e meu coração, de alegria. Posso dizer que a felicidade é palpável e está ali, repousando em mim.