Crônica de um Natal

Era um homem comum. Desses que tem uma família comum, um emprego comum, uma vida comum. Sem muito luxo, nem pompa e circunstância. Trabalhava arduamente, dia após dia. No domingo, reunia a família em torno da mesa para o almoço semanal. Era a rotina.
É engraçado como às vezes temos pesar de falar em rotina. Nem toda rotina é amarga, entristece. Um pouco de rotina faz bem, é até necessária. O almoço familiar dominical era esse tipo de rotina imprescindível. Começou quando os rebentos ainda eram pequenos e tornou-se hábito. Os filhos, já crescidos, vinham para compartilhar desse momento. E assim o homem vivia seus dias, trabalhando rotineiramente, alimentando-se rotineiramente, reunindo sua família rotineiramente.
Porém, algo estalava dentro de seu coração. Havia uma voz que falava ali dentro e pedia, encarecidamente, que algo de novo acontecesse. Que um novo hábito fosse incorporado àquela vida que levava.
Um dia, o homem teve um sonho. Não era desses sonhos premonitórios que às vezes as pessoas têm. Era um sonho de regressão: o homem voltou a sua infância. Naquele sonho, ele, já homem feito, estava de fora, como espectador, observando a si próprio quando criança.
Era noite de Natal. O homem e seus seis irmãos, sem muitas expectativas de presentes de Papai Noel, estavam ao redor da mesa, aguardando a ceia simples, mas feita com amor. De repente, batem à porta. Eis que surge uma mulher, vestida em roupa vermelha e carregando uma sacola de presentes. Aquelas sete crianças mal podiam conter a alegria! Não é que há um Papai Noel para os mais pobres? E riam, e gritavam, e corriam… e rasgavam os papéis e pegavam seus presentes. Que alegria, como estavam felizes.
Então ele acordou. Acordou e continuou com aquela lembrança viva na mente.
Decidiu que naquele Natal faria diferente. Foi até uma loja, dessas que vendem artigos a preço baixo. Comprou uma roupa de Papai Noel, bem simples. Com a roupa embrulhada na sacola, seu coração se enchia de alegria e felicidade. Chegou em casa, guardou o pacote bem guardado e voltou a sua vida, contando os dias para a noite de Natal.
O dia 24 de dezembro finalmente amanhece. O homem salta da cama, na expectativa daquela noite. Vai para o trabalho, mas o pensamento está longe, longe… No final da tarde, volta para casa, toma um banho demorado. Vai para o quarto e pega cuidadosamente o pacote.
O homem se arruma. Sua esposa o ajuda a colocar a barba e o gorro. Arranjam um sino. Pegam o presente e colocam em um saco. Com o coração acelerado, “Papai Noel” segue seu rumo.
Chega a uma casa simples. Toca a campainha. Uma senhora, com andar vagaroso, o atende. “É ela! É ela!” Mal pode conter a emoção. Era ela: a mulher que proporcionou tantos bons Natais em sua infância agora estava ali, diante dele. Conversaram e não contiveram o choro, que veio solto e intenso. Estava ali a história de sua infância revivida. Estava ali uma nova rotina.
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Dez anos se passaram. A rotina perdura e novas atividades foram incorporadas a ela, como a visita a outras casas especiais e o passeio, antes da meia-noite, pelas ruas de seu bairro.
O homem, hoje avô de duas pequenas crianças, vê nos olhos de seus netos a felicidade e a esperança que habita em toda criança.
– Vovô, hoje é dia de Papai Noel! Hoje é dia de Papai Noel! – diz, eufórico, o neto mais velho, do alto de seus dois anos.
O homem sorri. Sente, mais uma vez, o coração estalar. E não é por pequenos estalos que se vive?
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Esta é uma história inspirada na minha própria história.
Para mim, Natal vai muito além de Papai Noel. Natal é o momento de repensar o amor, de refletir sobre nossas ações e o quanto estamos considerando a máxima cristã “amai-vos uns aos outros”. Natal é família, é estar presente, é abraço, é oração.

Ainda não sei como tratarei o assunto “Papai Noel” com minha pequena cria, de apenas nove meses. Porém, sei que o principal ela já aprendeu com o mestre Tom Jobim desde que estava em minha barriga: “fundamental é mesmo o amor”.